sábado, 10 de novembro de 2018

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Se tiver(es) pressa, não leia(s). Corra/e. Chegará(s) mais depressa ao fim.


Apontamomento


Ter um quintal em dia, hoje, não é fácil. Mesmo com dedicação exclusiva e permanente. Não há, como a algumas dezenas de anos, jornaleiro (assim lhe chamávamos) que, à jorna (dia ou meio-dia), colaborava no amanho e cultivo da terra, sementeiras e plantações, podas e colheitas. Atualmente, nem para a conservação e limpeza se encontra mão-de-obra suficiente. E parece tão mal deixá-lo de velho!
São poucos e raros, hoje, os trabalhadores rurais. E prestam os serviços à hora: chegam e levantam quando querem.
Manter um quintal, hoje em dia, não é canseira fácil. Ao meu, vou dedicando os cuidados indispensáveis, os que sei e ainda posso. Nele ou junto dele, vou passando os meus dias descomprometidos, geralmente de sol a sol. Exceto depois do almoço (a que, em criança, chamávamos jantar, reservando este nome para a ceia), exceto em dias mais quentes, dizia. Sento-me no alpendre e leio ou passo pelas brasas. Ou dou uma volta pelos caminhos sempre dantes palmilhados.
Como ontem. Só que, conforme ia caminhando, uma relativa tristeza me foi invadindo.
Os carreiros, cangostas e caminhos foram elevados à categoria de ruas, travessas e avenidas, por onde agora se caminha e circula, bem melhor que outrora, é verdade e ainda bem. Casas dispersas (raras) e junto das vias ainda as há: uma nova aqui, outra bem reconstruída além. Umas habitadas, sobretudo por gente da minha idade ou talvez mais. Outras abandonadas: temporariamente, se os donos estão migrados (sobretudo com <e>), a que se acolhem nas férias; definitivamente, se, se… não admira o estado de ruína crescente em que se encontram.
Mas ainda se ouvem sons. Os mais constantes são os do relógio da torre, cantando as horas, inteiras e meias, do irremediável passar do dia. E há os cães, presos a corrente ou soltos dentro de muros  e redes, sobressaltados com a visão da minha estranha figura. Ladram os próximos e os distantes respondem, solidários. Como os galos, mas estes ao desafio. De galinha, nem um leve cacarejar. Àquela hora, já tinham posto o ovo. Mas desconfio que elas já não chocam, nem criam ninhadas. De frangas, nem sinais.
Ouvi, contudo, um chamar de mulher por filha, seguido de conversa que o gravador dos meus tímpanos não captou. De criança, nem grito, nem choro, nem ruídos. O silêncio era, de facto, nos princípios da tarde de ontem, a voz profunda da terra que mais alto se ouvia. Até que lá apareceu, depois da curva, o trator cansado, lentamente anunciado pelo velho motor. Que é feito do carro de bois?
Encontrei, por fim, três conterrâneos, melhor, duas senhoras e um cavalheiro, todos mais novos que eu. Mutuamente nos reconhecemos. Cumprimentamo-nos, sem cerimónias nem constrangimentos. Contentes.
E comecei a recuperar alguma alegria. E ainda deu para, no regresso, encher os bolsos de castanhas, num sítio do caminho ***, estrumado delas.
Na ida e vinda, por gente que passei ou vi passar ao longe, ninguém caminhava de olhos cravados no telemóvel. Nem seguia atrelada a um canino.
Os meus conterrâneos rurais sabem, muito bem, a terra que calcam. Urbanamente.
O quintal está à minha espera.

David F. Rodrigues
(24-10-2018)

quinta-feira, 26 de julho de 2018

segunda-feira, 23 de julho de 2018

O ROSTO,
POESIA DE DAVID F. RODRIGUES



                                                           Cláudio Lima




David F. Rodrigues (Mato, Ponte de Lima, 6-3-1949) publicou no início do ano corrente um livrinho de diminuto corpo mas de excelente qualidade, tanto no apuro gráfico como, sobretudo, na oferta poética com que nos brinda. Trata-se de o rosto, revelado no mês de fevereiro pº pº pelas edições Eufeme, de Leça da Palmeira.

Já em 2015, com um livro em que alia uma lúcida e corrosiva dissecação do Portugal de hoje a uma hábil imitação da nossa poesia medieval – estes cantares fez & som escarnhos d’ora – (Ed. de A., Viana do Castelo), saudou-se vivamente o seu “regresso” ao convívio dos poetas seus pares. É que, desde 1988, ano em que publicou O Que É Feito de Nós (Límia, Viana do Castelo), por força de seus afazeres letivos e da sua valorização académica, deixou a atividade literária em suspenso por quase três longas décadas.

Produziu e publicou, entretanto, trabalhos de índole científica e pedagógica, associados à preparação do mestrado (1995) e do doutoramento (2003), no âmbito da Linguística / Teoria do Texto, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. As respetivas dissertações Para a Análise Conversacional da Arca de Noé, III Classe de Aquilino Ribeiro e Cortesia Linguística: uma Competência Discursivo-Textual, encontram-se acessíveis em suporte digital. Alguns trabalhos relacionados, bem como outros de outra natureza, designadamente os dedicados a Camilo Castelo Branco e Viana do Castelo, foram divulgados em publicações de especialidade, posteriormente autonomizados em separatas.
Se a atividade propriamente dita literária, em que tinha demonstrado inequívocas provas de excelência e regularidade, esteve ausente por dilatado tempo de prelos e expositores, não se infira um absoluto abandono ou interrupção de tal prática. Além de aparições esporádicas em obras temáticas de coautoria, David F. Rodrigues foi arquivando projetos, tópicos, esboços para futuro aprofundamento e estruturação. A sua passagem à situação de aposentado, ocorrida em 2010, veio proporcionar-lhe a disponibilidade de tempo e de espírito requerida para dar corpo e divulgação a tais escritos embrionários. 


E assim, é-nos grato saudar e proveitoso usufruir (d)esta recolha poética, pequena mas substancialmente rica; este rosto composto de algumas máscaras em que o Autor se expõe e ao mesmo tempo se dá ao fingimento, segundo a estratégia insincera preconizada por Pessoa e o desdobramento da personalidade na dicotomia eu / o outro, experimentado por Mário de Sá-Carneiro. Regredindo no tempo, e consultando Frei Francisco de S. Luís, o Cardeal Saraiva, religioso beneditino, filólogo e linguista entre os mais competentes da sua época, egrégia figura limiana, no primeiro tomo da sua obra Ensaio sobre alguns Synonymos da Lingua Portugueza (1), ao observar as gradações ou nuances semânticas entre o grupo vocabular formado por cararosto – semblante – face – vulto -, opina que “rosto tem uma significação mais ampla; e parece exprimir a parte dianteira, que é justamente a mais saliente, a que mais aparece, ou primeiro se adverte, tanto no homem, como em outros objectos.” (págs 25 / 26)

É, com efeito, através do rosto que o ser humano, e de um modo especial o poeta, vê e interioriza; se emociona e se maravilha ou se autoflagela e desespera, consoante os estados de alma que a realidade circundante lhe impõe. Ele é o espelho, mesmo se baço, mesmo quando poliédrico, onde aflui a substância magmática do nosso eu profundo, desagua o caudal tumultuoso de sentimentos, emoções, sensações e volições expressos em traços de serenidade, crispação, dúvida, angústia, etc. No que ao ato criador concerne, o rosto o anuncia em júbilo pela palavra descoberta e transformada em fonte de emanação do ser, no seu estado de atualização e contingência, mas também de porfia ganha no superar dos obstáculos e limitações impostos por naturais constrangimentos da humana condição.

Pretendem estas prévias considerações enquadrar o rosto de David F. Rodrigues num plano ou plataforma de legibilidade poética. Curiosamente o lexema que batiza o livro aparece duas vezes apenas no conjunto de 23 textos: no 1.º: “se um dia der // a minha vida um livro / uma só página há de ter // o rosto” (1. Pág. 9) e no último: ”quando um dia inscrever / o meu poema na pétala mais breve / da mais simples flor de incenso // consentirei que ao posto / de poeta me dês rosto” (23. Pág. 35). É num futuro condicional, portanto, que o poeta projeta o pleno alcance do seu ideal. Citando o pessoano Alberto Caeiro, David F. Rodrigues pode dizer que “viu como um danado”, porque sendo genuinamente lírica, a sua poesia é acentuada e recorrentemente de imersão no tempo e na circunstância; veicula uma visão desencantada e denunciadora de uma sociedade contemporânea órfã de referências mobilizadoras, vazia de crenças, mergulhada num pântano de vilanias e corrupções.
Parabolicamente, vemo-lo na pele de um agricultor impotente perante a sua granja inçada de pragas e ervas daninhas, invadida por predadores: “toupeiras ratos e outros males”; “mal chega o mês da colheita / já bicho de avaro bico e boca insatisfeita / saciado está em me fazer desfeita // resta-me então o restolho rasteiro / memória dos grãos que lanço à eira / com destino incerto no espigueiro” (9. Pág. 17) Sendo metaforicamente agrícola, a poesia acaba por ser alimento. Para David F. Rodrigues, na senda de Natália Correia (2), ela “é para comer”, no sentido em que entra no processo alimentar do nosso espírito; “é com poucas e vulgares palavras / como géneros de pura subsistência / que cuido e preparo os alimentos / que maior prazer à língua me dão // é na irrepetível e cuidada sintaxe / dos seus aromas texturas e cores / selecionados com persistência / que verso a verso discurso a refeição // busco só parcos e refinados sabores” (4. Pág. 12)

Noutra perspetiva, poderemos falar numa relação amor / desamor insuperável, experimentado no limite de um discurso que sempre fica aquém do desejado, provocando estados de ansiedade e angústia. Se é desígnio e ambição da poesia iluminar o mundo com a mais pura claridade que dorme no interior da palavra, a atitude do verdadeiro poeta nunca é triunfalista, antes reveladora de uma certa impotência e frustração. Se “escrever é um suplício”, como afirmou o grande romancista norte-americano Philip Roth recentemente falecido, escrever poesia é-o duplamente, na medida em que porfia conduzir a palavra e sua semântica a níveis de leitura múltiplos e sobrepostos, inesgotáveis de desafio e sedução. Confessa o Autor: “a mim a poesia faz-me / um mal terrível vício / contraído na juventude / incorrigível devora-me // noite e dia horas a fio / sem descanso”. (13. Pág. 23)
Para aqueles que ligeiramente a tratam, levianamente se consideram seus representantes legítimos e credenciados, exibindo fátua mediocridade e prosápia, tem David F. Rodrigues um conselho sábio ao mesmo tempo que pleno de mordacidade: “para busto teres na praça / não basta rimares de graça // precisas doutra resposta / evita pôr a bota na bosta // nunca terás o que pedes / cheirando assim como fedes” (16. Pág. 28) Ao contrário, pratica ele uma atitude de humilde expetativa e perseverança, ciente de que resta a cada poeta a possibilidade de lançar uma minúscula réstia de luz sobre a opacidade e o desconcerto do mundo; aquela lábil faúlha que resulta do espanto de um olhar-ver-penetrar os fenómenos com o propósito de atingir a mais profunda essência das coisas, o mais velado rosto do mistério. “mas o que é e para que serve / hoje a poesia me perguntas // não sei nunca saberei / com certezas responder-te (…)”. (20. Pág. 32)

Advirta-se, a encerrar este breve comentário, que um leitor menos familiarizado com os aspetos formais da nossa poesia de hoje achará na estrutura de o rosto algo de displicente se não de caótico. Um equívoco, naturalmente. Estes poemas foram criteriosamente elaborados; evidenciam disciplinada contensão, originalidade construtiva, domínio perfeito das figuras de estilo e dos mais sugestivos recursos linguísticos. Caraterísticas que postulam uma leitura lenta e atenta, realizada como quem saboreia a mais deliciosa iguaria. 

(1) – S. Luís, Frei Francisco de – Ensaio sobre alguns Synonymos da Lingua Portugueza – 2 volumes de 254 e 228 pp – Ed. Typ. Commercial de G. Delius, Santos – 1856. A 1.ª ed. é de 1821.
(2) – Correia, Natália – Poema “A defesa do poeta” em Poesia Completa – Ed. Dom Quixote, Lisboa, 1999.
 
                                                                                                                                                            maio de 2018

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OBS1.
 - Publicado em Ponte de Lima: do passado ao presente, rumo ao futuro! (n.º 4, julho 2018), pp. 124-127 [N.º dedicado ao Poeta António Feijó. Capa ao lado].

OBS2. – Acesso a outras opiniões e/ou recensões críticas ao livro, neste blogue, sob a etiqueta «o rosto».

OBS3. - De o rosto, foi lançada, em 16-07-2018, a 2.ª edição, pela mesma editora (Eufeme).