quadras à solta (008a)
terça-feira, 31 de julho de 2018
quinta-feira, 26 de julho de 2018
III. Dispersos
Obs. - Este meu exercício poético foi "postado" em «Gazeta de Poesia Inédita», a convite do Poeta José Pascoal, autor do blogue. Muito obrigado!
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segunda-feira, 23 de julho de 2018
O ROSTO,
POESIA DE DAVID
F. RODRIGUES
Cláudio
Lima
David F. Rodrigues (Mato, Ponte
de Lima, 6-3-1949) publicou no início do ano corrente um livrinho de diminuto
corpo mas de excelente qualidade, tanto no apuro gráfico como, sobretudo, na
oferta poética com que nos brinda. Trata-se de o rosto, revelado no mês de fevereiro pº pº pelas edições Eufeme, de Leça da Palmeira.

Produziu e publicou, entretanto,
trabalhos de índole científica e pedagógica, associados à preparação do
mestrado (1995) e do doutoramento (2003), no âmbito da Linguística / Teoria do
Texto, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de
Lisboa. As respetivas dissertações Para
a Análise Conversacional da Arca de Noé,
III Classe de Aquilino Ribeiro e Cortesia
Linguística: uma Competência Discursivo-Textual, encontram-se acessíveis em
suporte digital. Alguns trabalhos relacionados, bem como outros de outra
natureza, designadamente os dedicados a Camilo Castelo Branco e Viana do
Castelo, foram divulgados em publicações de especialidade, posteriormente autonomizados
em separatas.
Se a atividade propriamente dita literária, em que tinha demonstrado
inequívocas provas de excelência e regularidade, esteve ausente por dilatado
tempo de prelos e expositores, não se infira um absoluto abandono ou
interrupção de tal prática. Além de aparições esporádicas em obras temáticas de
coautoria, David F. Rodrigues foi arquivando projetos, tópicos, esboços para
futuro aprofundamento e estruturação. A sua passagem à situação de aposentado,
ocorrida em 2010, veio proporcionar-lhe a disponibilidade de tempo e de
espírito requerida para dar corpo e divulgação a tais escritos embrionários.
…
E assim, é-nos grato saudar e
proveitoso usufruir (d)esta recolha poética, pequena mas substancialmente rica;
este rosto composto de algumas
máscaras em que o Autor se expõe e ao mesmo tempo se dá ao fingimento, segundo
a estratégia insincera preconizada por Pessoa e o desdobramento da
personalidade na dicotomia eu / o outro, experimentado por Mário de Sá-Carneiro.
Regredindo no tempo, e consultando Frei Francisco de S. Luís, o Cardeal
Saraiva, religioso beneditino, filólogo e linguista entre os mais competentes
da sua época, egrégia figura limiana, no primeiro tomo da sua obra Ensaio sobre alguns Synonymos da Lingua
Portugueza (1), ao observar as gradações ou nuances semânticas entre o grupo vocabular formado por cara – rosto – semblante – face – vulto -, opina que “rosto tem uma
significação mais ampla; e parece exprimir a parte dianteira, que é justamente
a mais saliente, a que mais aparece, ou primeiro se adverte, tanto no homem,
como em outros objectos.” (págs 25 / 26)
É, com efeito, através do rosto
que o ser humano, e de um modo especial o poeta, vê e interioriza; se emociona
e se maravilha ou se autoflagela e desespera, consoante os estados de alma que
a realidade circundante lhe impõe. Ele é o espelho, mesmo se baço, mesmo quando
poliédrico, onde aflui a substância magmática do nosso eu profundo, desagua o caudal
tumultuoso de sentimentos, emoções, sensações e volições expressos em traços de
serenidade, crispação, dúvida, angústia, etc. No que ao ato criador concerne, o
rosto o anuncia em júbilo pela palavra descoberta e transformada em fonte de
emanação do ser, no seu estado de atualização e contingência, mas também de
porfia ganha no superar dos obstáculos e limitações impostos por naturais
constrangimentos da humana condição.
Pretendem estas prévias
considerações enquadrar o rosto de
David F. Rodrigues num plano ou plataforma de legibilidade poética. Curiosamente
o lexema que batiza o livro aparece duas vezes apenas no conjunto de 23 textos:
no 1.º: “se um dia der // a minha vida um livro / uma só página há de ter // o
rosto” (1. Pág. 9) e no último: ”quando um dia inscrever / o meu poema na
pétala mais breve / da mais simples flor de incenso // consentirei que ao posto
/ de poeta me dês rosto” (23. Pág. 35). É num futuro condicional, portanto, que
o poeta projeta o pleno alcance do seu ideal. Citando o pessoano Alberto
Caeiro, David F. Rodrigues pode dizer que “viu como um danado”, porque sendo
genuinamente lírica, a sua poesia é acentuada e recorrentemente de imersão no
tempo e na circunstância; veicula uma visão
desencantada e denunciadora de uma sociedade contemporânea órfã de
referências mobilizadoras, vazia de crenças, mergulhada num pântano de vilanias
e corrupções.
Parabolicamente, vemo-lo na pele
de um agricultor impotente perante a sua granja inçada de pragas e ervas
daninhas, invadida por predadores: “toupeiras ratos e outros males”; “mal chega
o mês da colheita / já bicho de avaro bico e boca insatisfeita / saciado está
em me fazer desfeita // resta-me então o restolho rasteiro / memória dos grãos
que lanço à eira / com destino incerto no espigueiro” (9. Pág. 17) Sendo
metaforicamente agrícola, a poesia acaba por ser alimento. Para David F.
Rodrigues, na senda de Natália Correia (2), ela “é para comer”, no sentido em que entra no processo alimentar do
nosso espírito; “é com poucas e vulgares palavras / como géneros de pura
subsistência / que cuido e preparo os alimentos / que maior prazer à língua me
dão // é na irrepetível e cuidada sintaxe / dos seus aromas texturas e cores /
selecionados com persistência / que verso a verso discurso a refeição // busco
só parcos e refinados sabores” (4. Pág. 12)
Noutra perspetiva, poderemos
falar numa relação amor / desamor insuperável, experimentado no limite de um
discurso que sempre fica aquém do desejado, provocando estados de ansiedade e
angústia. Se é desígnio e ambição da poesia iluminar o mundo com a mais pura
claridade que dorme no interior da palavra, a atitude do verdadeiro poeta nunca
é triunfalista, antes reveladora de uma certa impotência e frustração. Se
“escrever é um suplício”, como afirmou o grande romancista norte-americano
Philip Roth recentemente falecido, escrever poesia é-o duplamente, na medida em
que porfia conduzir a palavra e sua semântica a níveis de leitura múltiplos e
sobrepostos, inesgotáveis de desafio e sedução. Confessa o Autor: “a mim a
poesia faz-me / um mal terrível vício / contraído na juventude / incorrigível
devora-me // noite e dia horas a fio / sem descanso”. (13. Pág. 23)
Para aqueles que ligeiramente a
tratam, levianamente se consideram seus representantes legítimos e
credenciados, exibindo fátua mediocridade e prosápia, tem David F. Rodrigues um
conselho sábio ao mesmo tempo que pleno de mordacidade: “para busto teres na
praça / não basta rimares de graça // precisas doutra resposta / evita pôr a
bota na bosta // nunca terás o que pedes / cheirando assim como fedes” (16.
Pág. 28) Ao contrário, pratica ele uma atitude de humilde expetativa e
perseverança, ciente de que resta a cada poeta a possibilidade de lançar uma
minúscula réstia de luz sobre a opacidade e o desconcerto do mundo; aquela
lábil faúlha que resulta do espanto de um olhar-ver-penetrar os fenómenos com o
propósito de atingir a mais profunda essência das coisas, o mais velado rosto
do mistério. “mas o que é e para que serve / hoje a poesia me perguntas // não
sei nunca saberei / com certezas responder-te (…)”. (20. Pág. 32)
Advirta-se, a encerrar este breve comentário, que um leitor menos familiarizado com os aspetos formais da nossa poesia de hoje achará na estrutura de o rosto algo de displicente se não de caótico. Um equívoco, naturalmente. Estes poemas foram criteriosamente elaborados; evidenciam disciplinada contensão, originalidade construtiva, domínio perfeito das figuras de estilo e dos mais sugestivos recursos linguísticos. Caraterísticas que postulam uma leitura lenta e atenta, realizada como quem saboreia a mais deliciosa iguaria.
(1) – S. Luís, Frei Francisco de – Ensaio sobre alguns Synonymos da Lingua
Portugueza – 2 volumes de 254 e 228 pp – Ed. Typ. Commercial de G. Delius,
Santos – 1856. A 1.ª ed. é de 1821.
(2) – Correia, Natália – Poema “A defesa do poeta” em Poesia Completa – Ed. Dom Quixote,
Lisboa, 1999.
maio de 2018
________________________

OBS2. – Acesso a outras opiniões e/ou recensões críticas ao livro, neste blogue, sob a etiqueta «o rosto».
OBS3. - De o rosto, foi lançada, em 16-07-2018, a 2.ª edição, pela mesma editora (Eufeme).
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sexta-feira, 20 de julho de 2018
Ofício poético de David F. Rodrigues
[Leitura crítica de o rosto, por José Cândido Oliveira Martins*]
De facto, e como não existem leitores adâmicos, que se aproximem de um texto literário totalmente desprovidos de informações ou de um determinado horizonte de expectativas, também aqui podemos já ter dados prévios sobre o poeta; como também somos informados, em breve nota “sobre o autor” (Rodrigues, 2018: 36) do perfil do autor, com uma panorâmica sobre a sua obra literária, iniciada no já distante ano de 1971, incluindo ainda nesse trabalho de escritor a assídua colaboração com a imprensa, numa actividade de escrita que não se reduz à poesia[1].
OBS1. - Publicado AQUI (Caliban – Revista de letras artes e ideias), e em Ponte de Lima: do passado ao presente, rumo ao futuro! (n.º 4, julho 2018), pp. 113-121 [N.º dedicado ao Poeta António Feijó. Capa ao lado].
[Leitura crítica de o rosto, por José Cândido Oliveira Martins*]
1. Pórtico
Quando iniciamos a leitura de o rosto, o mais recente título de poesia de david f. rodrigues (2018), percebemos imediatamente estar perante uma voz poética amadurecida, com um percurso de escrita anterior. Não é muito provável que um jovem autor iniciante escreva deste modo, usando esta forma de linguagem, esta imagética e esta tópica recorrente, como veremos adiante.

Dentro da mesma ideia do horizonte de expectativas, a escrita deste título o rosto aparece-nos sob a égide de dois clássicos — Luís de Camões e Herberto Helder, um clássico quinhentista e intemporal, a par de um clássico da nossa contemporaneidade. Mais concretamente, as epígrafes citadas peritextualmente destes poetas remetem para duas linhas de força da escrita poética de David F. Rodrigues (2018: 7), a saber: os conhecidos versos finais da Canção V da lírica camoniana concluem um pensamento iniciado na primeira estrofe, quando lemos algumas observações em torno da capacidade de expressão e os seus efeitos (no sujeito e no objecto do poema):
“Se este meu pensamento,
como é, doce e suave,
d’alma pudesse vir gritando fora,
mostrando seu tormento
cruel, áspero e grave,
diante de vós só, minha Senhora:
pudera ser que agora
o vosso peito duro
tornara manso e brando.
E eu que sempre ando
pássaro solitário, humilde, escuro,
tornado um cisne puro,
brando e sonoro pelo ar voando,
com canto manifesto,
pintara meu tormento e vosso gesto.” (Camões, 1994: 211)
como é, doce e suave,
d’alma pudesse vir gritando fora,
mostrando seu tormento
cruel, áspero e grave,
diante de vós só, minha Senhora:
pudera ser que agora
o vosso peito duro
tornara manso e brando.
E eu que sempre ando
pássaro solitário, humilde, escuro,
tornado um cisne puro,
brando e sonoro pelo ar voando,
com canto manifesto,
pintara meu tormento e vosso gesto.” (Camões, 1994: 211)
E depois destes versos, em que o sujeito aborda o tema da luta pela expressão (Fidelino de Figueiredo) ao nível da tópica da pintura do retrato feminino da mulher amada, a superior e atraente “Dama delicada”, somos confrontados pouco depois com uma conclusão metapoética, em que a voz fala teatralmente (monólogo) com o próprio poema. Esta reflexão equivale a uma sintética arte poética, em que se traça a apologia de uma certa forma de escrita reescrevendo um velho preceito da velha e sempre actual lição poético-retórica — se se pode dizer em menos palavras ou em versos “pequenos”, deve-se privilegiar esta forma contida, evitando toda a prolixidade:
“Canção, não digas mais; e se teus versos
à pena vêm pequenos,
não queiram de ti mais, que dirás menos.” (Camões, 1994: 213)
à pena vêm pequenos,
não queiram de ti mais, que dirás menos.” (Camões, 1994: 213)
Esta oportuníssima e significante invocação de Camões articula-se semanticamente com a citação de Herberto Helder (1968: 18), concretizada num verso de Apresentação do Rosto: “Gostaria de escrever o livro de que tenho medo”. Ainda que aparentemente os breves excertos dos dois poetas não pareçam ter nada em comum, une-os a meditação em torno da própria escrita poética, pelos desafios que isso implica, como adiante se retomará.
Afinal de contas, na escrita poética todo o autor vai construindo uma imagem de si, um rosto singular que o diferencia de outros autores — ao ponto de poder dizer: esta escrita sou eu, esta palavra define-me; e (subentende-se) esta poesia perdurará depois de mim. No tratado De Oratore, Cícero escrevera uma imagem que perdura no tempo, com algumas variantes: “O rosto é o espelho da alma”.
Cumprindo o desiderato expresso no final da Canção camoniana, mas também na senda de tendências inscritas há muito na poética deste autor, tal como expressa em obras anteriores, estes 26 poemas breves e originais[2] que compõe o livro aparecem-nos moldados por uma grande contenção, precedidos de uma dedicatória muito sóbria, simplesmente numerados e despojados do título, além de se mostrarem distantes de uma tessitura intertextual explícita. Deve ainda acrescentar-se, à laia de rápida introdução, que também estamos perante uma poética que prescinde de qualquer sinal de pontuação, sem com isso perturbar (antes pelo contrário) a expressividade literária. Também aqui, algumas das enunciadas opções compositivas se mantêm fiéis a um programa poético que recua às primeiras obras, como no livro o rito do pão (1981).
2. Linguagem
Como seria expectável, nesta escrita sobressai o fascínio pela linguagem verbal, mais especificamente pelas belezas ocultas da palavra poética. Do primeiro ao último poema, são muitas as manifestações sobre as exigências da dicção poética, desde logo presentes num vocabulário marcado por essa obsessão: livro, página, poesia, dizer, dito, regra, palavra(s), sintaxe, verso, discurso, folhas, sintagma, soneto, manuscrito, cesura, crítico, rimas, chave d’ouro, meta-discursivo, etc. Nesta enumeração aleatória e não exaustiva, deparamo-nos com um léxico que pertence assumidamente ao campo semântico da escrita literária, remetendo para o labor que ela implica. O dizer poético supõe, desde séculos remotos, muito mais do que capacidades naturais e inatas, uma arte ou técnica que se aprende e se treina, tendo como epicentro a polissemia da palavra.
Nesta atração quase sôfrega e sensorial pelas palavras e pela sua infindável riqueza de sentidos, destaca-se uma confessada e central atitude de demanda por parte do sujeito poético. Essa sintomática procura perpassa vários textos com destaque para um dos poemas centrais de o rosto, em cuja primeira estrofe pode ler-se: “tivesse eu encontrado já / a palavra única que procuro há / volta de meio século / para compor o simples verso” (Rodrigues, 2018: 14). Deste modo, o poema tem uma gestação lenta, pensada e laboriosa, sempre em busca da palavra exacta — “por natureza o poeta / não é um fala-barato” –, concluindo de forma bem assertiva e confessando que a criação implica sempre o suor do rosto, para usarmos a conhecida expressão popular: “sai muito cara sempre / ao poeta toda a palavra” (Rodrigues, 2018: 24). Em outro poema, o sujeito insiste no significado de “fazer versos atrás de versos / sejam santos ou travessos” (Rodrigues, 2018: 28).
Na “folha virgem”, a busca da “palavra única” para compor o “verso simples” constitui a grande obsessão, de quem busca dizer o que ainda não foi dito com a propriedade e a inovação desejáveis. E todos os meios são usados pelo poeta nessa interminável busca pela palavra certa e ímpar, na sua laboriosa e “gasta banca de aprendiz de poeta”, sempre em busca da palavra certa, do verso exacto e do “sintagma feliz”[3]. Por isso, em outros textos sobrevém a confissão dessa procura ou “aprendizagem” contínua, tanto mais intensa quanto a poesia representa uma atração irresistível desde muito cedo, sempre em demanda do “efeito imponderável” e inesperado.
Ao mesmo tempo, em registo hipotético e modesto, o poema inaugural lança o desafio que dá forma ao título do volume, em formulação incerta: “se um dia der // a minha vida um livro / uma só página há de ter // o rosto” (Rodrigues, 2018: 9). Equivalendo a um ambicioso programa poético, que culmina circularmente no último poema do livro, o que parece afirmar-se é, em primeiro lugar, a centralidade axial do rosto na escrita poética — desde logo, porque quem escreve, escreve-se. E a individualidade poética de um rosto só se alcança quando se atinge determinada maturidade, como os traços de um rosto revelam uma existência vivida.
Por outras palavras, mesmo pressupondo todo o trabalho de ficcionalização, a voz poética compõe sempre (ou visa esse desiderato) um determinado perfil que se pretende único, o mesmo é dizer uma escrita que condensa um rosto. Com este significado, não estamos tanto a falar em rosto no sentido plástico ou físico, mas antes num sentido psicológico e sobretudo estético, a meio caminho do conceito antropológico e filosófico de rosto, tal como veiculado pelo pensamento de Emmanuel Levinas. Uma coisa é certa: escreva o que escrever, independentemente das obras publicadas, o poeta é sempre um incansável “lavrador da terra” e um permanente “aprendiz”, tentando decifrar o mistério contido na esfinge da palavra, afinal uma das formas de conhecimento de si e do mundo, de inegável alcance gnoseológico.
3. Metapoesia
Como salientado por Vítor Aguiar e Silva (2008), há uma forte presença da poética na tradição literária ocidental, de reflexão sobre o fazer poético, e, durante séculos, dotada de forte pendor normativo. Em todo o caso, depois da grande ruptura da estética romântica, a poética abandona essa multissecular normatividade, para se concentrar na meditação sobre o próprio trabalho da poesia.
Uma outra dimensão complementar do afirmado sobre a linguagem e a palavra literária é a atitude manifestamente metapoética que a escrita de vários destes textos assume: “eu gastarei ainda uns largos minutos / a queimar folhas e folhas de versos inúteis / que a impertinente aprendizagem / do pobre ofício do poeta com os mestres / durante o dia de boa vontade me impus” (Rodrigues, 2018: 25).
Em diversos textos de o rosto, o foco concentra-se obsessivamente no próprio acto de “fazer versos”, numa clara reminiscência do poiein clássico. Na sequência do afirmado, não surpreende a modéstia reiterada e a permanente insatisfação do poeta no exercício continuado do seu ofício, aprendendo sempre com a natureza:
“se eu fosse poeta de ofício experiente
e garantido faria como este melro
dos meus encantos vespertinos e matinais
só entregaria á alva luz dos dias o poema
que seguro e consciente soubesse inteiro
de composição sólida e sábia interpretação
este singular solista por natureza dispensa
pautas ensaios maestros e regências
de seu canto exclusivo é
autor compositor e intérprete”
(Rodrigues, 2018: 27)
Como vemos, não deixa de ser muito significativo que uma das palavras mais reiteradas seja a de “ofício”, como sinónimo de acto de celebração, mas sobretudo como trabalho oficinal do poeta-aprendiz — ou seja, poesia como “ofício” dedicado, labor contínuo, aprendizagem, com o fito da “aprendizagem do ser”, permanentemente incompleta e insatisfeita.
Simultaneamente, a poesia é apresentada como um “vício” ancestral, quase congenial: “a mim a poesia faz-me / um mal terrível vício / contraído na juventude / incorrigível devora-me”. Porém, afirma-se como vocação absorvente, na radicalidade da pulsão para a poesia: “noite e dia horas a fio / sem descanso” (Rodrigues, 2018: 23). Porque, como sugerido, a dicção poética rima com extrema selecção da palavra, num gesto comparável à busca do ouro por entre enormes camadas de minério inerte e insignificativo, no incansável crisol: “todas as palavras à sombra / me perseguem em disputa acesa / por um lugar ao sol num poema / ou tão só num simples verso” (Rodrigues, 2018: 15).
Para enfatizar esta dimensão oficinal e laboriosa da poesia, o sujeito recorre a analogias mais ou menos inesperadas, mas sobretudo imagens dotadas de manifesta expressividade, tendo sempre como pano de fundo o ofício do poeta: a formiga obreira, analogia indirecta do poeta; a poesia como alimento que cuidadosamente se prepara — “é com poucas e vulgares palavras / como géneros de pura subsistência / que cuido e preparo os alimentos / que maior prazer à língua me dão” (Rodrigues, 2018: 12)[4]; o perfume da poesia, cujas fragâncias insólitas o poeta persegue; o mar como “experiente e exigente mestre” da poesia, apagando as “desalinhadas linhas” escritas na efemeridade da areia; o “canto enamorado” do melro repetido nestes poemas (sucedendo a outras aves poéticas ancestrais, do rouxinol à cotovia e ao cisne) — “o melro é de longe o meu preferido / poeta como justificarei em quinze ponto três”[5].
Ocasionalmente, como sugerido antes, o poeta também associa metaforicamente o seu dedicado labor ao do lavrador da terra, mesmo quando a poesia é uma “terra mais que ingrata”. Em todo o caso, a terra aparece genérica e simbolicamente como húmus vital, mesmo quando a mão do poeta necessita extirpar “todas as ervas daninhas”, sublinhando o vigor com a mãe-terra ou a Natureza, fonte de toda a vitalidade, numa indirecta recriação do mito de Anteu.
Desde tempos imemoriais, a Natureza sempre se constituiu como repositório ou “thesaurus” inesgotável de imagens poéticas — sobretudo ao nível das mais profundas estruturas antropológicas do imaginário (Gilbert Durant) –, também para abordar, simbólica e alegoricamente, o próprio fazer da poesia enquanto trabalho ou artefac-to verbal. Afinal de contas, tanto no cultivo da terra como no cultivo da palavra poética se busca afanosamente a colheita de “frutos únicos” (cf. Rodrigues, 2018: 17).
Como se este programa de escrita não fosse suficientemente explícito para a elaboração de uma verdadeira arte poética, elogiosa do dizer da poesia, ainda surge a referência a “regras” de composição. Estes e outros elementos remetem-nos para a vexata quaestio — exemplarmente abordada por Horácio, na sua Arte Poética, com ecos multisseculares[6] — de saber se a génese da poesia reside mais na inspiração ou no trabalho, como nos recorda exemplarmente o poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto (1982).
É verdade que encontramos nestes versos alusões ao “fogo”, ao sopro e ao “vento” da inspiração (o “ingenium” dos Antigos, de Platão a Horácio); porém, a grande ênfase vai directamente para o trabalho (a “ars” dos clássicos). Dito de outro modo, reafirma-se neste canto metapoético de o rosto, sob a forma de panegírico da própria poesia, a importância do ofício laborioso do poeta. Não é por acaso que esta voz poética não fala de criação, mas muito mais de artefacto poético, pois, como nos recorda Vítor Aguiar e Silva (1986: 208 ss.) essa é uma tendência da modernidade: afastar-se de uma teoria do génio criador, envolto num misterioso processo de inspiração transcendente; e, por oposição, insistir na ideia de trabalho de construção, árduo e tenso, de contínua luta pela expressão. Afinal, num interminável e sempre insatisfeito labor, o poeta é um artífice consciente do seu ofício.
À maneira dos clássicos antigos, também o poeta contemporâneo se interroga sobre a função ou utilidade da palavra poética, quando fala expressamente em “versos inúteis” ou em “canto inútil” (Rodrigues, 2018: 25, 29); e ainda em outra formulação bem mais explícita: “mas o que é e para que serve / hoje a poesia me perguntas // não não sei nunca saberei / com certezas responder-te” (Rodrigues, 2018: 32).
Também aqui este pensamento poético se filia numa riquíssima tradição multissecular, estendendo-se desde os clássicos gregos e latinos, com destaque para o referido Horácio, até aos poetas contemporâneos, que continuam a interrogar-se sobre a natureza (essência) e a funcionalidade da poesia para o ser humano e para a sociedade[7].
Fica bastante claro que, não cedendo a tentações fáceis, a poesia não tem de justificar a sua finalidade dentro de uma lógica meramente utilitarista, pois enquanto linguagem estética integra as artes do sentido (G. Steiner). Porém, uma certeza se mostra indiscutível: perder a poesia equivale a perder o amor ou paixão de uma vida (cf. Rodrigues, 2018: 32). Ambas, poesia e paixão (ou a paixão da poesia) preenchem o sentido de uma existência.
E o livro de David F. Rodrigues termina, circularmente, num movimento que se fecha sobre o rosto. Com efeito, depois do poema-pórtico já mencionado, esta sequência poética termina com a afirmação — desejável ainda que efémera — do rosto enquanto busca de identidade e voz próprias, expressa de modo inefável:
“quando um dia inscrever
o meu poema na pétala mais breve
da mais simples flor de incenso
consentirei que ao posto
de poeta me dês rosto”
(Rodrigues, 2018: 35)
Pela sua natureza intrinsecamente genuína e especular, a poesia é o rosto individual de um poeta. Como também pode ser de uma sociedade: “A literatura é um assunto sério para um país, pois é afinal de contas o seu rosto” (Louis Aragon). Porque, afinal, o rosto espelha uma alma ou um coração, como os escritores bem sabem: “Por cada coração, terás um rosto próprio, essa será a medida justa” (José Luís Peixoto). Por tudo o afirmado, esta obra poética é simbolicamente o rosto mais amadurecido de David F. Rodrigues.
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Referências
AGUIAR E SILVA, Vítor (1986), Teoria da Literatura, Coimbra, Almedina.
— (2008), “Sin poética hay poetas: ensaio de poética histórica. Sobre a fortuna da lírica ocidental”, in Helena C. Buescu (org.), Poesia e Arte da Poesia (Homenagem a Manuel Gusmão), Lisboa, Caminho, pp. 229–251.
CAMÕES, Luís de (1994), Rimas, Coimbra, Liv. Almedina (edição de Álvaro Júlio da Costa Pimpão).
CORREIA, Hélia (2013), A Terceira Miséria, Lisboa, Relógio d’Água [2012, 2ª reimpressão].
CORREIA, Natália (2000), Poesia Completa, Lisboa, Dom Quixote.
HELDER, Herberto (1968), Apresentação do Rosto, Lisboa, Ulisseia.
HORÁCIO (2012). Arte Poética, 4ª ed., Lisboa, Fund. Calouste Gulbenkian (ed. de R. M. Rosado Fernandes).
NETO, João Cabral de Melo (1982), Poesia e Composição (A Inspiração e o Trabalho de Arte), Porto, Fenda Edições.
RODRIGUES, David F. (2018), o rosto, Leça da Palmeira, Eufeme (Col. “Poetas da Eufeme”, 14).
VERDE, Cesário (1992), O Livro, Lisboa, Ática.
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[1] Mais concretamente, nascido em 1949, e a par da docência e da investigação na área das Letras/Humanidades, David F. Rodrigues é autor dos seguintes títulos no domínio da poesia: grãos de poesia (Braga, 1971); Vibração de Nervos (Ponte de Lima, 1976); o rito do pão (Coimbra, 1981); Dilúvio de Chamas (Porto, 1985); O que é feito de nós (Viana do Castelo, 1988); estes cantares fez & som escarnhos d’ora (Viana do Castelo, 2015). Além de outras obras em prosa (conto, novela), entre outros géneros textuais em colaborações dispersas por antologias e publicações periódicas.
[2] Apenas temos a informação, em nota de rodapé de que dois poemas tinham sido anteriormente publicados em Eufeme — magazine de poesia, 1 (2016), mas então providos de títulos: “discurso a refeição” e “ponto final”.
[3] Por vezes, nesta preocupação com expressividade da palavra poética, parecemos ouvir em eco, a lição de Cesário Verde (1992: 57) do célebre poema “Contrariedades”, na sua conhecida reflexão metapoética: “E apuro-me em lançar originais e exactos / Os meus alexandrinos”.
[4] Esta imagem que associa a palavra poético-literária ao alimento possui uma matriz clássica, que perdura naturalmente até à poesia portuguesa contemporânea — palavra como alimento intelectual, estético ou espiritual, imagem que Natália Correia (2000) hipertofria com entusiasmo no texto intitulado “A defesa do poeta”, em cuja última estrofe lemos essa asserção sobre a absoluta necessidade do alimento poético: “Sou uma impudência a mesa posta /de um verso onde o possa escrever / ó subalimentados do sonho! / a poesia é para comer.” Acrescente-se, já agora, a nota da própria escritora sobre a circunstância da génese deste poema: “Compus este poema para me defender no Tribunal Plenário de tenebrosa memória. O que não fiz a pedido do meu advogado que sensatamente me advertiu de que essa insólita leitura no decorrer do julgamento comprometeria a defesa, agravando a sentença.”
[5] Assim remetendo para o poema seguinte, cujo terceto de abertura podemos ler: “se eu fosse poeta de ofício experiente / e garantido faria como este melro” (Rodrigues, 2018: 27).
[6] “Há quem discuta se o bom poema vem da arte se da natureza: cá por mim, nenhuma arte vejo sem rica intuição e tão pouco serve o engenho sem ser trabalhado: cada uma destas qualidades se completa com as outras e amigavelmente devem todas cooperar” (vv. 408–9). Assim medita Horácio, na célebre distinção — complementar, e não dicotómica — entre estudo (studium) e inspiração ou engenho (ingenium) (Horácio, 2012: 155).
[7] A questão revela-se verdadeiramente intemporal — na referida Arte Poética de Horácio (2012) afirma-se claramente a dupla função da utilidade (ensinar) e do deleite (agradar): “Aut prodesse uolunt aut delectare poetae” (v. 333) e “utile dulci” (v. 343). De um modo agónico, também a poetisa Hélia Correia (2013: 15), entre outros autores, se interroga sobre o lugar da poesia em tempos de acentuada crise contemporânea: “Para quê, perguntou ele, para que servem / Os poetas em tempos de indigência?”.
*Professor da Universidade Católica Portuguesa
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OBS2. – Acesso a outras opiniões e/ou recensões críticas ao livro, neste blogue, sob a etiqueta «o rosto».
OBS3. - De o rosto, foi lançada, em 16-07-2018, a 2.ª edição, pela mesma editora (Eufeme).
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O Rosto
Poesia de David F. Rodrigues
Por Cláudio Lima
O
rosto, a face. Sinónimos puros ou nem tanto? Dois nomes que proliferam no nosso
vocabulário, corrente e poético, denotando certas e subtis distinções de
natureza semântica. O nosso filólogo e linguista Frei Francisco de S. Luís,
vulgo Cardeal Saraiva, na obra Ensaio sobre alguns Synonymos da Lingua
Portugueza, agrupando Cara – Rosto –
Semblante – Face – Vulto, opina
que, em relação às duas primeiras, «Rosto tem uma significação mais ampla; e parece
exprimir a parte dianteira, que é juntamente a mais saliente, ou a que mais
aparece, ou primeiro se adverte, tanto no homem, como em outros objectos.» Por
sua vez, «face tem seu particular uso quando queremos falar das côres, e de
outras propriedades, que se percebem pela superfície dos corpos.» (1856, págs.
25/27) Digamos que face espelha o
perfil anatómico, enquanto rosto
revela o nosso ser e estar mais profundo e enigmático.
Reportado
ao universo poético, o rosto será, assim, uma espécie de percursor da mensagem,
a sua embrionária e semioculta expressão. «O rosto com que fita é Portugal» –
escreve Fernando Pessoa na Mensagem,
referindo-se à Europa. Fitar é um processo de (re)conhecimento. Vários poetas e
outros autores, ao longo do tempo, têm explorado, recorrentemente, em sentido
mais amplo ou mais restrito, os conceitos de olhar e ver. Olhar será uma função de natureza meramente orgânica; já ver configura uma atitude consciente e
ativa perante um sujeito, um objeto, um cenário; um observar e interpretar em
atualidade e circunstância, rodeado, se não submerso, de / num torvelinho de
seres e coisas, dinâmicas ou estáticas, num processo de desafio, assédio,
provocação.
Recorro
novamente à obra referida do ilustre limiano e monge beneditino. Na entrada: Olhar – Ver – Esguardar – Avistar –
Enxergar – Lobrigar – Divisar -, estabelece, entre outras, a seguinte
distinção: «OLHAR é lançar os olhos; aplicar o orgão da vista. VER é o efeito
do olhar: é apprehender com a vista o
objecto a que se lançárão os olhos: é sentir a impressão, que o objecto fez, no
orgão da vista. (id. 171) José Saramago, por sua vez, epigrafa o Ensaio sobre a Cegueira (1995, 3.ª
ed.) com uma máxima retirada do Livro
dos Conselhos: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.»
Reparar
é, pois, apreender algo no seu todo, a partir da observação das
particularidades e acessórios da sua constituição orgânica. É, digamos, um
exercício de seletividade e interiorização, visando superar o propagado
conceito do Principezinho de
Saint-Exupéry quando afirma que «o essencial é invisível aos olhos; só se vê
bem com o coração». Em sentido coincidente, Alberto Caeiro, criação heterónoma de
Pessoa, por seu lado, leva a extremos gnosiológicos (ou anti-gnosiológicos) o
processo da visão, esvaziando-o de toda e qualquer interferência racional do
agente observador. Nos seus Poemas (1963,
3.ª ed.), recorrentemente, direi mesmo obsessivamente, o irracionalismo (ou a-racionalismo?)
constitui uma atitude metódica e sistemática, conferindo domínio absoluto à
espontaneidade e à autenticidade do sentimento projetado sobre o mundo dos seres
e da natureza. Percorrendo o livro, a par e passo surpreendemos versos
vinculando tal opção. Por exemplo, entre outros: «Pensar é não compreender… O
Mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos).» (pág.
22); «Penso com os olhos e com os ouvidos/ E com as mãos e os pés/ E com o
nariz e a boca.» (pág. 37), etc. As coisas na sua pura individuação e
indivisibilidade, imunes a preconceitos e pressupostos. José Gil, figura
cimeira do nosso ensaísmo, com trabalhos consagrados ao complexo pessoano, na
sua obra Diferença e Negação na Poesia
de Fernando Pessoa, comenta o objetivismo irracional e sensorial de Caeiro
nos seguintes termos: «Recusando qualquer transcendência, ele vive, por assim
dizer, “no plano da natureza”; aspirando à pura exterioridade, troça da
metafísica e dos seus mundos “interiores”.) (1999, pág. 15) E, pouco depois,
afirma: «é o único ser humano capaz de ver naturalmente, sem esforço. Todos os
outros precisam de aprender a ver. Aprender a desaprender, como escreve Caeiro,
para se ter acesso a uma visão espontânea e natural.» (id. pág. 17)
O
rosto, pois. O que de nós é espelho,
mesmo se baço, mesmo quando poliédrico. Onde aflora a substância magmática do
nosso eu profundo, desagua o caudal tumultuoso de sentimentos, volições e sensações
expressos em traços de serenidade, crispação, dúvida, angústia, etc. – tantos e
tais consoante o estado psicossomático de cada um em cada momento. Transposto
para este plano, também o exercício poético ao rosto se anuncia sempre que o
poeta nele se concentra. Ecrã, expositor, retrato em negativo, nele aflui o
júbilo pela palavra descoberta e transformada em fonte de emanação do ser, no
seu estado de atualização e contingência, também de porfia em superar os limites
que os naturais constrangimentos lhe impõem.
Existe
no rosto uma dupla capacidade funcional: ler e deixar-se ler. Se tem sido dada
à propriedade ativa uma maior ênfase nestes parágrafos introdutórios, não menos
importante se torna poder ler um rosto na sua autêntica aparição constituída de
complexidade e mistério. Se ele nos fornece «uma imagem de si à qual o
indivíduo se deve conformar» (Erving Goffmam, citado por Claudine Haroche em História do Rosto (Círculo de Leitores,
1997, pág. 9); se, como afirma Johann Jakob Engel, ele se constitui em
«principal morada dos movimentos da alma» (ibidem, pág. 109), é apenas por um
jogo reflexo que o poderemos tomar como janela reveladora da própria interioridade.
Ninguém se pode autocontemplar face-a-face, impossibilidade figurada no
mitológico Janus bifacial, cujos rostos se encontram em posição diametralmente
oposta. Cabe ao interlocutor, como agente externo, essa prerrogativa de poder
ler um rosto na sua genuína e desnuda figuração. Tratando-se da dimensão
artística essa leitura devém e é condicionada pela impressão que a obra em
apreço provoca. Nela se revela, com efeito, em retrato ou caricatura, em
autenticidade ou fingimento, o rosto mais ou menos acessível autor. É uma
espécie de ato maiêutico o que o leitor crítico pretende exercer sobre o íntimo
de uma obra, conectando-a com a correspondente intensidade explícita, insinuada
ou mesmo imaginada, da fisionomia do autor, enquanto sob dependência da pulsão
criativa, desta forma estabelecendo uma interação entre a essência do texto e a
personalidade nele projetada.
Este
rosto, portanto; o rosto de David F.
Rodrigues (1), autor de algumas navegações-périplos já antes ousadas pelos
mares, quase sempre procelosos e hostis, da aventura poética. Neste livro o
autor reflete, perante o desconcerto do mundo e os equívocos quanto à sua
possível salvação, uma atitude de desassossego e de desesperança. Abre com duas
citações, uma de Camões, outra de Herberto Hélder. Do primeiro:
«Canção, não digas mais; e se
teus versos
À pena vêm pequenos,
Não queiram de ti mais, que dirás
menos.
(Lírica Completa III, Lisboa – IN-CM,
1981, pág. 23.)
E
do segundo:
«Gostaria de escrever o livro de
que tenho medo.»
(Apresentação do Rosto, Ed. Ulisseia, Lisboa – 1968, pág. 18.)
E
logo no poema de abertura («1» / pág. 9), breve e incisivo, a consciência
resignada dos limites que a natureza impõe à ilimitada aspiração ao suprassumo lírico:
«se um
dia der
a minha
vida um livro
uma só
página há de ter
o rosto»
O
termo “rosto” pode conter, aqui, uma certa ambiguidade, não estranha às linhas
introdutórias deste apontamento, dado que tanto pode significar a “página de
rosto” (no glossário editorial correspondente à página ímpar inicial de um
livro, contendo os elementos principais: título, autor, género literário, editor,
local e data, etc.), como o próprio rosto do poeta, único comportável em tão
exíguo - «uma só página» – campo de observação.
É
nesta perspetiva que convém englobar e interpretar o conjunto de 23 poemas em
apreço: como emanação reflexa do sujeito poético. Curiosamente,
(sintomaticamente?) o lexema “rosto” apenas se repete no último poema do
conjunto. Nele o autor, ancorado na praia da suspensa deriva, afirma o
propósito tenaz de um dia merecer alcançar o rosto (o estatuto) de poeta:
«quando
um dia inscrever
o meu
poema na pétala mais breve
da mais
simples flor de incenso
consentirei
que ao posto
de
poeta me dês rosto»
(«23» /
pág. 35)
Que
diz, do que fala o autor neste pequeno livro? É preciso, para uma resposta
cabal e consequente, reportarmo-nos à sua obra anterior, sobretudo a estes cantares fez & som escarnhos
d’ora - (Viana do Castelo, 2015) onde a ironia e o maldizer implicam um
mais vasto e complexo mosaico de intenções e intervenções. Se nunca a poesia
deve adotar uma atitude passiva, distanciada ou indiferente perante a vida da
cidade, esta obra reflete-o com a veemência de quem vê e alcança para além do
imediato, do superficial, do aparente. “Vi como um danado”, poderia ele dizer,
citando o Alberto Caeiro atrás comentado. Referindo-me àquele livro, escrevi
que o autor «foi buscar suporte trovadoresco para unir um conjunto de poemas
escarninhos, de um escárnio que nada tem de gratuito entretém, de justas
estéreis e floreios para regalo de palacianos ociosos. É excelente pela sua
contundente dimensão interventiva num Portugal contemporâneo órfão de
referências mobilizadoras, vazio de valores, mergulhado no pântano de todas as
vilanias e corrupções. (Suplemento CULTURA do Diário do Minho de 16-12-2015)
Essa
sua visão implacável e visceralmente
pessimista perante uma realidade que o rodeia e tenta submergir; essa
radiografia de um povo acrítico e subserviente num país de assimetrias e
gritantes desníveis sociais, podemos dizer que, se não tão cruamente, ainda se
repercute neste novo livro. «lavrador de terra mais que ingrata sou», assim se
define David F. Rodrigues, metaforicamente, na luta inglória por erradicar da
sementeira as «ervas daninhas» e
aliviá-la «de toupeiras ratos e outros males». Depois, «mal chega o mês
da colheita / já bicho de avaro bico e boca insatisfeita / saciado está em me
fazer desfeita // resta-me então o restolho raseiro.» («9.» / pág. 17) Concebe
a poesia como uma espécie de lavoura de subsistência e lamenta, com
injustificada modéstia, a sua inaptidão para um cabal granjeio, tomando-a como
a força da sua fraqueza:
«a poesia não é
o meu forte
a poesia é
o
meu fraco
a poesia é
a força da minha fraqueza»
(«2.» /
pág. 10)
E,
suspiroso, escreve no poema «6.», pág. 14: «tivesse eu encontrado já / a palavra única que procuro / há volta de meio
século / para compor o simples verso».
A
poesia resultará, pois, de um esforço tenaz e contínuo em aprimorar a linguagem
que, por sua vez, tem como função primeira penetrar e desvelar o ser e o
mistério da existência. Natália Correia, numa ousada e original noção, chega a
considerar a poesia como comestível, algo que entra no sistema alimentar do
nosso espírito. Também David F. Rodrigues comunga do mesmo ponto de vista
quando, poema «4.», pág. 12, escreve:
«é com
poucas e vulgares palavras
como
géneros de pura subsistência
que
cuido e preparo os alimentos
que
maior prazer à língua me dão
é na
irrepetível e cuidada sintaxe
dos
seus aromas texturas e cores
selecionados
com persistência
verso a
verso discurso a refeição
busco
só parcos e refinados sabores»
Noutra
perspetiva, poderemos falar numa relação amor / desamor insuperável, experimentada
no limite de um discurso que sempre fica aquém do desejado, provocando estados
de ansiedade e angústia:
«a mim
a poesia faz-me
um mal
terrível vício
contraído
na juventude
incorrigível
devora-me
noite e
dia horas a fio
(…)»
(«13.»
/ pág. 23)
Não
por mera e balofa vaidade, antes pelo desígnio e porfia de iluminar o mundo com
a mais pura claridade que dorme no interior adormecido das palavras. Nesse
sentido ridiculariza quem busca fama e proveito através da mediocridade e da
prosápia, como se lê neste excerto do poema «16.» / pág. 28:
«para
busto teres na praça
não
basta rimares de graça
precisas
doutra resposta
evita a
bota na bosta
nunca
terás o que pedes
cheirando
assim como fedes»
David
F. Rodrigues vive a poesia como algo essencial para a legibilidade possível do
mundo, dos seus mistérios, desafios, paradoxos. Sabe que ela estabelece a ponte
entre seres irmanados nos mesmos sentimentos, medos, aspirações. Ostensivamente
militante e contestatária, ou remetida a um lirismo sereno e intimista, a
poesia será sempre um laço de fraternidade a unir os homens e o melhor antídoto
contra as mesquinhas ambições que fazem correr tanto zoilo ao arrepio dos
valores fundamentais.
«mas o
que é e para que serve
hoje a
poesia me perguntas
não não
sei nunca saberei
com
certezas responder-te
só sei
que por ela foi
que um
dia te encontrei
só sei
que sem ela um dia
corro o
risco de perder-te»
(«20.»
/ pág. 32)
Ao
ler este poema ocorreu-me uma genial observação de Jorge de Sena que não
resisto a citar: «Não chegamos a dois mil anos de entendimento crítico do que a
poesia seja, para continuarmos ainda a discutir o que ela devia ser.» (Poesia e Cultura, Porto, 2006, pág. 99)
De facto, filósofos, filólogos e ensaístas. De todos os tempos e de todas as
latitudes têm tentado ingloriamente esse cometimento. Revolucionária da
escrita, devassadora dos mais profundos e insondáveis arcanos da natureza
humana e dos mais impenetráveis mistérios do mundo, cabe ao poeta, a cada
verdadeiro poeta, a possibilidade de sobre ela lançar uma minúscula partícula
de luz, aquela lábil faúlha que resulta do espanto de um olhar-ver-penetrar
sobre a essência e a circunstância que o estimula, aquele espanto que Theodor
Adorno entende ser «um longo e inocente olhar sobre o objeto». Assim a poesia
de David F. Rodrigues. A sua disciplinada contensão, na sua original riqueza
construtiva, com frequente recurso a tropos, elipses, síncopes, hipérboles e
outros instrumentos gramaticais, propícios a leituras múltiplas e sobrepostas,
ele figura de pleno direito no restrito grupo de poetas portugueses e
estrangeiros que conseguem «surpreender um instante da existência, recriá-lo
poeticamente como quem faz uma fotografia», como afirmou recentemente José
António Gomes no jornal As Artes entre
as Letras (n.º 211, 31-01-2018, pág. 11).
Por
tudo quanto disse e pelo muito que deixei de dizer, aconselho vivamente leitura
de O Rosto. Leitura que não pode ser
apressada nem desatenta, antes digerida com o vagar que merece a fruição de
boas iguarias.
(1)
– Coleção «Poetas da Eufeme» n.º 14. Leça da Palmeira, Eufeme, 2018. Capa de
Sérgio Ninguém.
Texto
de apresentação da obra no Instituto Politécnico de Viana do Castelo em 9 de
março de 2018.
__________________________

OBS1. – Publicado em Cultura – Suplemento de o Diário do Minho, de 30/05/2018, pp. II-IV, acessível também AQUI.
OBS2. – Acesso a
outras opiniões e/ou recensões críticas ao livro, sob a «etiqueta» o rosto, neste blogue.
OBS3. - De o rosto, foi lançada, em 16-07-2018, a 2.ª ed., pela mesma editora (Eufeme).
OBS3. - De o rosto, foi lançada, em 16-07-2018, a 2.ª ed., pela mesma editora (Eufeme).
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