segunda-feira, 20 de março de 2017


     Reinaldo Ferreira faz hoje 95 anos

Reinaldo Ferreira, 19--4: Poemas.
(Pref.: José Régio). Lisboa: Portugália; p. 24.

Para recordar e/ou ler e/ou ser (mais) informado:

        «Mais amiúde, porém, o que se verifica, na poesia de Reinaldo Ferreira, é um constante equilíbrio entre a exuberância das metáforas e a recusa das metáforas –, mas equilíbrio que não representa, de modo algum, uma solução de “meio-termo”, antes uma tensão permanente entre a unidade e a multiplicidade que vê nos outros, que vê nas coisas, que vê em si. Os poemas de amor que escreveu – e não são raros – traduzem também, de vários modos, em diferentes níveis, inúmeras formas desse estado de tensão.»
David MOURÃO-FERREIRA, 1969: «Reinaldo Ferreira»,
Tópicos de Crítica e de História Literária. Lisboa: União Gráfica; p. 276.

NB1 - As fotografias da Poeta foram colhidas em Google+ / Imagens / Reinaldo Ferreira.
NB2 - Respeitadas grafia e pontuação das edições consultadas.

quinta-feira, 16 de março de 2017


     Camilo faz hoje 192 anos


Camilo Castelo Branco, 2008: Poesia.
(Ed.: Ernesto Rodrigues). [Lisboa]: S/Ed.; p. 202.

Para recordar, cf.:
AQUI e AQUI (Blogue «Camilo & Viana – cadeia de relações»).

Bibliografia a (re)ler, sobre o Escritor, enquanto POETA, no sentido (mais) restrito e (mais) alargado do termo:

RODRIGUES, Ernesto, 2008: «Camilo, Poeta», em BRANCO, Camilo Castelo, 2008, Poesia, [Lisboa], S/Ed., pp. 7-45. Estudo, [prefácio à edição («uma antologia») de poemas do Escritor], com análise crítica de estudos, realizados por outros autores, sobre a poesia de Camilo.
SENA, Jorge de, 20012: «Em Louvor de Camilo», em Estudos de Literatura Portuguesa I, Lisboa, Edições 70, pp. 137-139. «Trágico, épico, lírico, satírico - tudo isso foi Camilo. De tudo isso, e de um mágico poder encantatório, se compõe o seu pessoalíssimo estilo.» No romance, no teatro, na poesia, para que se reconheça Camilo como «o grande poeta que é.» [P. 137)

NB1 - As fotografias da Poeta foram colhidas em Google+ / Imagens / Camilo Castelo Branco.
NB2 - Respeitadas grafia e pontuação das edições consultadas.

quarta-feira, 15 de março de 2017

A PROPÓSITO DOS 50 ANOS DE O CANTO E AS ARMAS DE MANUEL ALEGRE


Ontem, ouvi, na Antena 2, e li, no DN, que, para comemorar os 50 anos da publicação de O Canto e as Armas, de Manuel Alegre, chegava às livrarias uma nova edição do livro, com prefácio de Mário Cláudio.
A notícia comenta tratar-se de «livro que marcou uma geração». E de que maneira! - recordo e, a propósito, um pouco contarei, abaixo. Mas, antes, convirá referir, em nome da verdade, que o referido jornal reproduz, lado a lado, as capas do livro, com a seguinte legenda: «A mais recente das reedições e a capa original de O Canto e as Armas».

 Ora acontece que a capa da 1.ª edição (1967, chancela: Nova Realidade) não é a que se mostra. A «capa [dita] original» que ilustra [?] a notícia é da Centelha, Coimbra, cujo símbolo se encontra no canto superior esquerdo do volume, embora não seja indicado o n.º da edição.

Não possuo O Canto e as Armas, tal como saiu em 1967. Possuo, todavia, a 2.ª edição, publicada pela Centelha, em 1970. Eis a capa e contracapa:

Agora, a recordação, entre outras, como adquiri este livro, no dia 29-1-71, por 30$00 (trinta escudos, para quem não saiba ou já se tenha esquecido destes símbolos). Livro que, como outros então adquiridos, guardo, orgulhosamente, como preciosidades.

O Canto e as Armas comprei-o, em Braga, onde era estudante, na Faculdade Filosofia, na Livraria Víctor, situada na Rua dos Capelistas. O proprietário desta livraria era Víctor de Sá [Obrigado, Henrique Barreto Nunes, pelo “post” sobre «O Livreiro Victor de Sá»]. Sabendo ele do meu gosto pela poesia, tendo-me (re)encontrado, naquela data, no seu estabelecimento, disse-me: «Venha aqui ao meu gabinete!» E fui, claro.
(Entretanto, o doutor Vítor tinha aberto outra Livraria Victor no r/c, com galeria no 1.º andar, na Rua Arantes Oliveira - o doutor residia num prédio em frente, do outro lado desta mesma rua. E eu residia na «República» que, perto, ficava na Avenida João XXI.)
O doutor Vítor abriu a gaveta do fundo da secretária e retirou dela um livro, colocando-me, nas mãos, com um largo e franco sorriso, O Canto e as Armas. E acrescentou: «Leia que vai gostar!» Agradeci e, antes de sair da Livraria Victor, paguei, grato, a um (eram dois ou três) dos funcionários.

Ainda tinha, no bolso, uns “patacos” – a bolsa da Gulbenkian também dava para, de vez em quando, me dar a estes “luxos”. E se livro houvesse, para cuja compra a “mesada” já não desse, o doutor Vítor permitia que o adquirisse a “(con)fiado”. Para o efeito, forneceu-me um cartão «Titular de Conta». Este, que ao lado se mostra:

Mais importante, muito mais importante, porém, que esta minha modesta “memória” (gosto destas aliterações em <m>), é (re)ler O Canto e as Armas, do Manuel Alegre. Já! Seja em que edição for.

Obrigado por me aturarem!

domingo, 12 de março de 2017


     Ribeiro Couto faz hoje* 119 anos.

Ribeiro Couto, 1935: «carícia nocturna».
Presença - Revista de Arte e Cultura (vol. II) n.º 45; p. 5.
[Ed. consult.: Presença – Edição fac-similada compacta (Tomo II). Lisboa: Contexto.]

Para recordar e/ou ler e/ou ser (melhor) informado:

«[…] Integrado no Movimento Modernista de 1922, não se afastou de todo, pela temática, do Simbolismo. Suave e terno, preferiu os temas da vida quotidiana […]. Diplomata de carreira, R. C. viveu também em Portugal, deixou-se impregnar da suavidade da paisagem, da simplicidade dos costumes, e reflectiu-os amorosamente nos últimos trabalhos que publicou. Aliás, sua poesia continua no Brasil a tradição do lirismo português de gosto popular. […]»
G[uilhermino] C[ésar], «Couto, Rui Ribeiro»
Em Jacinto do Prado COELHO (dir.), 19783: Dicionário de Literatura. (Vol. 1).
Porto: Figueirinhas; p. 227.
*Também faz anos, hoje, Raul Brandão.

NB1 - As fotografias da Poeta foram colhidas em Google+ / Imagens / Ribeiro Couto.
NB2 - Respeitadas grafia e pontuação das edições consultadas.

     Raul Brandão faz hoje* 150 anos.

Raul Brandão, 19—: Húmus.
Aillaud & Bertrand: Paris / Lisboa; p. 23.

Para recordar e/ou ler e/ou ser (melhor) informado:

«[…] Entrevendo as conclusões da psicanálise, o A. descobre com “espanto” ingénuo (atitude tìpicamente brandoniana) que no homem coexistem um eu social, superficial, o das conveniências – máscara de comediantes – e um eu abissal, o autêntico, o do egoísmo vital – “um poço sem fundo”, zona de obscuridade. O fantástico brandoniano resulta dessa intuição duma super-realidade no seio das coisas vulgares e familiares que o A. descreveu com um realismo caricatural na Farsa e no Húmus, a sua obra-prima, em que nos faz assistir ao Génesis desse mundo turbilhonário das realidades ocultas, exemplificadas por “velhos hábitos, misérias crónicas, gritos, exaspero” recalcados, um conjunto a que a imaginação genial do A. dá forma sobrerrealista duma catedral, “a catedral do fel e vinagre”. […]»
T[úlio] R[amires] F[erro], «Brandão, Raul Germano»
Em Jacinto do Prado COELHO (dir.), 19783: Dicionário de Literatura. (Vol. 1).
Porto: Figueirinhas; p. 122.

*Também faz anos, hoje, Ribeiro Couto.

NB1 - As fotografias da Poeta foram colhidas em Google+ / Imagens / Raul Brandão.
NB2 - Respeitadas grafia e pontuação das edições consultadas.

sábado, 11 de março de 2017

  
     Sebastião Alba* faz hoje 77 anos.


Sebastião Alba*, 1981: «[O rio sumiu-se]».
A Noite Dividida. Lisboa: Edições 70; p. 21.

* Pseudónimo de Dinis Albano Carneiro Gonçalves

Para recordar e/ou ler e/ou ser (melhor) informado:

«[…] Em alguns momentos, Alba poderá não ser um mago da palavra, mas tem sempre um inequívoco domínio da língua, um sábio articular de ritmo com os sentidos plurívocos. A palavra inesperada, quase intempestiva, surge numa sintagmática que a não rejeita: as suspensões, as supressões, a sincronizada marcação métrico-rítmica impõem-nos uma musicalidade, suave ou abrupta, uma significação, literalizada ou conotativa, sempre insistentemente atractivas. […]»
Pires LARANJEIRA, 1984: «Sebastião Alba / A Noite Dividida»
Colóquio/Letras, n.º 79 (Recensão crítica). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian; p. 108.

NB1 - As fotografias da Poeta foram colhidas em Google+ / Imagens / Sebastião Alba.
NB2 - Respeitadas grafia e pontuação das edições consultadas.

sexta-feira, 10 de março de 2017

III. Dispersos


III.1. Poema (LXXII)

                       Todos os dias são da poesia e sua partilha, como pão nosso de cada dia



Publicado em EUFEME - magazine de poesia, n.º 1 (outubro/dezembro 2016), p. 28, a convite do poeta Sérgio Ninguém, editor e coordenador da publicação. Nota biobibliográfica do autor (p. 25) precede a sua (i. e., minha) colaboração.


NB1 -  A primeira publicação de «ponto final» foi AQUI.
NB2 - Todos os direitos reservados.

quarta-feira, 8 de março de 2017


   Ruy Cinatti faz hoje 102 anos.

Ruy Cinatti, 1940: «Metamorfose».
Cadernos de Poesia, n.º 6 (2.ª Série). Lisboa; p. 21.
[Edição consultada: Luís Adriano Carlos & Joana Matos Frias (dir), 2004: Cadernos de Poesia.
(Reprodução fac-similada). Porto: Campo das Letras.]

Para recordar e/ou ler e/ou ser (melhor) informado:

«[…] é difícil encontrar na poesia portuguesa um poeta como Ruy Cinatti, ao mesmo tempo tão introspectivo e tão inteiramente atento ao exterior: uma consciência infeliz transformada em consciência poética vigilante, um poeta “singularmente repartido entre o céu e a terra”, na síntese precisa de Luís Amaro, que soube criar uma obra de dimensão ética e estética, activa e contemplativa, social e pura, realista, neo-realista e surrealista, sem qualquer prejuízo da sua coerência interna. […]»
Joana Matos FRIAS, 2016: «Eu Sou Poeta e Sei o que Digo».
Em Ruy Cinatti, 2016: Obra Poética I. [Lisboa]: Assírio & Alvim; p. 29.

* Também fazem anos, hoje, «João de Deus» e «José Blancde Portugal».

NB1 - As fotografias da Poeta foram colhidas em Google+ / Imagens / Ruy Cinatti.
NB2 - Respeitadas grafia e pontuação das edições consultadas.


   José Blanc de Portugal faz hoje* 103 anos.


José Blanc de Portugal, 1940: "Romance do Rio Grande".
Cadernos de Poesia, n.º 1. Lisboa; p. 9.
[Edição consultada: Luís Adriano Carlos & Joana Matos Frias (dir.), 2004: Cadernos de Poesia.
(Reprodução fac-similada). Porto: Campo das Letras.]

Para recordar e/ou ler e/ou ser (melhor) informado:

«[…] o terceiro organizador dos Cadernos de Poesia, José Blanc de Portugal […], só em 1960 reune em volume os seus versos. […] O autor de Romance do Rio Grande, poesia que figura no primeiro número da publicação que organizou [com Tomaz Kim e Ruy Cinatti], tem, contudo, de ser considerado entre nós um dos primeiros cultores de um género de poesia que anos depois se tornará uma das tendências dominantes do lirismo nacional: o neobarroquismo. É, realmente, um poeta barroco, integrando no barroquismo muitos dos apports da poesia do primeiro e do segundo modernismo, e antecipando-se, de algum modo, aos próprios surrealistas. […]»
João Gaspar SIMÕES, 1976: Perspectiva Histórica da Poesia Portuguesa (Séc. XX).
Porto: Brasília; pp. 388-389.

* Também fazem anos, hoje, «João de Deus» e «Ruy Cinatti».

NB1 - As fotografias da Poeta foram colhidas em Google+ / Imagens / José Blanc de Portugal.
NB2 - Respeitadas grafia e pontuação das edições consultadas.

   João de Deus faz hoje* 187 anos.

João de Deus, 197410: Campo de Flores (Tomo II).
Amadora: Bertrand; p. 135.

Para recordar e/ou ler e/ou ser (melhor) informado:

«[…] Surgido para a poesia numa época muito pouco afortunada, em que o ultra-romantismo começava a desagregar-se – e, sobretudo, a desacreditar-se -, João de Deus logo a breve trecho se impôs como lírico excepcional, pela atitude do sentimento, pela casta singeleza da inspiração e pela graciosa naturalidade da linguagem. [...]»
David MOURÃO-FERREIRA, 1969: "A propósito de João de Deus".
Tópicos de Critica e de História Literária. Lisboa: União Gráfica; pp. 76-77.

* Também fazem anos, hoje, «RuyCinatti» e «José Blanc de Portugal».

NB1 - As fotografias da Poeta foram colhidas em Google+ / Imagens / João de Deus.
NB2 - Respeitadas grafia e pontuação das edições consultadas.

terça-feira, 7 de março de 2017


   António Patrício faz hoje 139 anos.

António Patrício, 1911: «Saudade do teu corpo».
A Águia, n.º 10 (1.ª Série - Porto, Junho), p. 12.
[Director, proprietário e editor: Álvaro Pinto]

Para recordar e/ou ler e/ou ser (melhor) informado:

«[…] A busca do inusitado, do inédito, com o seu séquito de palavras sugestionantes, metáforas e repetições musicais próprias da estilística simbolista, sobrepõe-se às acumulações, às séries ternárias, substantivas ou adjectivais, da intensa, exasperada sensibilidade (ainda na linha romântica) de A. P.; e é sobretudo o seu amoralismo espiritualista – ou a sua ânsia de uma espiritualidade supra-humana, sucedâneo de uma religião já só viva como estímulo artístico – que melhor define o autor, cativo e amoroso de névoas, espectros, sombras outonais, indecisões crepusculares ou reflexos do mundo do encantamento, da magia, de um Além sem Deus. […]»
U[rbano] T[avares] R[ODRIGUES], 19783: «Patrício, António».
Em Jacinto do Prado COELHO (dir.), 19783Dicionário de Literatura. (Vol. 3).
Porto: Figueirinhas; pp. 802-803.

NB1 - As fotografias da Poeta foram colhidas em Google+ / Imagens / António Patrício.
NB2 - Respeitadas grafia e pontuação das edições consultadas.

segunda-feira, 6 de março de 2017

III. Dispersos


III.1. Poema (LXXI)

             Todos os dias são da poesia e sua partilha, como pão nosso de cada dia



Publicado em EUFEME - magazine de poesia, n.º 1 (outubro/dezembro 2016), p. 27, a convite do poeta Sérgio Ninguém, editor e coordenador da publicação. Nota biobibliográfica do autor (p. 25) precede a sua (i.e., minha) colaboração.


NB1 -  A primeira publicação de «discurso a refeição», sem título, foi AQUI.
NB2 - Todos os direitos reservados.

domingo, 5 de março de 2017

III. Dispersos


III.1. Poema (LXX)

             Todos os dias são da poesia e sua partilha, como pão nosso de cada dia



Publicado em EUFEME - magazine de poesia, n.º 1 (outubro/dezembro 2016), p. 26, a convite do poeta Sérgio Ninguém, editor e coordenador da publicação. Nota biobibliográfica do autor (p. 25) precede «Solitude».



sábado, 4 de março de 2017


   Eugénio de Castro faz hoje 148 anos.

CARTA


Se quero? Quero, sim, e vem depressa!
Esta casa estará cheia de flores!
Cá te espero amanhã! Não te demores!
Vem cedinho, vem logo que amanheça!

Não te via há dez anos! Recomeça
O meu céu negro a encher-se de esplendores!
O pior é que o tempo e os dissabores
Já semearam cãs nesta cabeça…

Vais estranhar-me, creio… Tu decerto
És hoje o que eras, conservando ainda
As mesmas tranças fartas e castanhas…

Tremo, de ti julgando-me já perto…
Como tu eras, há dez anos, linda!
Não mudaste, pois não?... Olha… não venhas!

Eugénio de Castro, 1938: Últimos Versos.
[Ed. consultada: Eugénio de Castro, 1987: Antologia  (Introdução, selecção e bibliografia
de Albano Martins). Lisboa: IN-CM; p. 279.]

Para recordar e/ou ler e/ou ser (mais) informado:

«[…] Artista superior, porventura o mais requintado de toda a poesia portuguesa, é esse um título que não pode, em boa verdade, recusar-se a Eugénio de Castro. E se não se detectam, na sua poesia, os dramas pungentes – individuais ou colectivos -, as angústias metafísicas, as preocupações sociais e as nevroses que alimentam a obra de alguns poetas seus contemporâneos e outros de gerações posteriores, não significa isso que não seja ele capaz de perante a vida e o mundo se emocionar. […]»
Albano MARTINS, 1987: «Introdução».
Em Eugénio de Castro, 1987: 10.

NB1 - As fotografias do Poeta foram colhidas em Google+ / Imagens / Eugénio de Castro.
NB2 - Respeitadas grafia a pontuação da edição consultada.

sexta-feira, 3 de março de 2017


   Maria Manuela Couto Viana* faz hoje 98 anos.

PRINCÍPIO


Ensina-me a dizer palavras claras,
sem nomes falsos, repetidos, lentos…
Ensina-me a chamar às coisas o seu nome,
seu nome verdadeiro.
Ensina-me a compor o poema derradeiro
da minha sede e minha fome.

Que eu não vá, nunca mais, inconsciente
da única beleza,
fugindo atrás duma canção perdida.
Ensina-me a encarar, simples, de frente,
sem máscaras, a vida.

Que eu não sinta só meu o que é roubado.
Ensina-me a beijar as rosas, sem mordê-las.
E nas noites sombrias, sem estrelas,
ensina-me a dormir um sono sem pecado.

                                                          Ensina-me a calar a força do meu grito.
                                                          Dá-me o tom verdadeiro do meu canto.
                                                          Cerra a boca do meu espanto,
                                                          e adoça-me o olhar de estátua de granito.

                                                          Ruga tardia em rosto desumano,
                                                          sofro a ânsia da paz que recusei.
                                                          Ensina-me a dizer às flores do verde ramo
                                                          que sim, que te encontrei!

Maria Manuela Couto Viana, 1950: «Princípio».
Távola Redonda - Folhas de Poesia - Fascículo 2. Lisboa; [p. 04]
{Eds. consultadas: Távola Redonda – Edição Facsimilada. Lisboa: Contexto; 1989, [p. 20]
A Poesia de Maria Manuela Couto Viana. (Pref. de Esther de Lemos). Lisboa: Átrio; 1993, p. 42.}

* Filha de Manuel Couto Viana (VC, 13/03/1892 - Lisboa, 07/12/1970) e de Maria Romana González de Lena e Carreño (1897-1976), e irmã do poeta e ator António Manuel Couto Viana (VC, 24/01/1923 - Lisboa, 08/06/2010).

Para recordar e/ou ler e/ou ser (mais) informado:

«Maria Manuela Couto Viana […] dá voz à voz da tradição, que já tem expressão no nosso cancioneiro medieval e, mais tarde, no nosso espólio poético-monacal, textos de grande interioridade e destacado individualismo, emotivamente reflectindo, com lírica força ascensional, subjectividades expressivas, desde a mansidão à queixa, desde a paixão à revolta. A poesia de Maria Manuela Couto Viana é paradigmática. Mas a voz da tradição na voz de Maria Manuela Couto Viana não é redutora, antes inspiração para uma menina e moça a caminho da ruptura com a instituída fórmula do viver feminino […].»
F[ernanda] B[otelho], 1996: «”As Fundas Nascentes da Poesia”».
Colóquio/Letras, n.º 142. Lisboa: Gulbenkian; p. 232.

NB1 - Os retratos da poetisa, da autoria de Carlos Carneiro (cabeçalho) e Manuel Couto Viana (poema), são digitalizações de reproduções que se encontram, respetivamente, em A Poesia de Maria Manuela Couto Viana (1993) e em Manuel Couto Viana, 1990: Ferro-Velho - Memórias e Estudos (Vol. II). Viana do Castelo: Câmara Municipal de Viana do Castelo; p. 190.
NB2 - Respeitadas grafia e pontuação das edições consultadas.