segunda-feira, 6 de março de 2017

III. Dispersos


III.1. Poema (LXXI)

             Todos os dias são da poesia e sua partilha, como pão nosso de cada dia



Publicado em EUFEME - magazine de poesia, n.º 1 (outubro/dezembro 2016), p. 27, a convite do poeta Sérgio Ninguém, editor e coordenador da publicação. Nota biobibliográfica do autor (p. 25) precede a sua (i.e., minha) colaboração.


NB1 -  A primeira publicação de «discurso a refeição», sem título, foi AQUI.
NB2 - Todos os direitos reservados.

domingo, 5 de março de 2017

III. Dispersos


III.1. Poema (LXX)

             Todos os dias são da poesia e sua partilha, como pão nosso de cada dia



Publicado em EUFEME - magazine de poesia, n.º 1 (outubro/dezembro 2016), p. 26, a convite do poeta Sérgio Ninguém, editor e coordenador da publicação. Nota biobibliográfica do autor (p. 25) precede «Solitude».



sábado, 4 de março de 2017


   Eugénio de Castro faz hoje 148 anos.

CARTA


Se quero? Quero, sim, e vem depressa!
Esta casa estará cheia de flores!
Cá te espero amanhã! Não te demores!
Vem cedinho, vem logo que amanheça!

Não te via há dez anos! Recomeça
O meu céu negro a encher-se de esplendores!
O pior é que o tempo e os dissabores
Já semearam cãs nesta cabeça…

Vais estranhar-me, creio… Tu decerto
És hoje o que eras, conservando ainda
As mesmas tranças fartas e castanhas…

Tremo, de ti julgando-me já perto…
Como tu eras, há dez anos, linda!
Não mudaste, pois não?... Olha… não venhas!

Eugénio de Castro, 1938: Últimos Versos.
[Ed. consultada: Eugénio de Castro, 1987: Antologia  (Introdução, selecção e bibliografia
de Albano Martins). Lisboa: IN-CM; p. 279.]

Para recordar e/ou ler e/ou ser (mais) informado:

«[…] Artista superior, porventura o mais requintado de toda a poesia portuguesa, é esse um título que não pode, em boa verdade, recusar-se a Eugénio de Castro. E se não se detectam, na sua poesia, os dramas pungentes – individuais ou colectivos -, as angústias metafísicas, as preocupações sociais e as nevroses que alimentam a obra de alguns poetas seus contemporâneos e outros de gerações posteriores, não significa isso que não seja ele capaz de perante a vida e o mundo se emocionar. […]»
Albano MARTINS, 1987: «Introdução».
Em Eugénio de Castro, 1987: 10.

NB1 - As fotografias do Poeta foram colhidas em Google+ / Imagens / Eugénio de Castro.
NB2 - Respeitadas grafia a pontuação da edição consultada.

sexta-feira, 3 de março de 2017


   Maria Manuela Couto Viana* faz hoje 98 anos.

PRINCÍPIO


Ensina-me a dizer palavras claras,
sem nomes falsos, repetidos, lentos…
Ensina-me a chamar às coisas o seu nome,
seu nome verdadeiro.
Ensina-me a compor o poema derradeiro
da minha sede e minha fome.

Que eu não vá, nunca mais, inconsciente
da única beleza,
fugindo atrás duma canção perdida.
Ensina-me a encarar, simples, de frente,
sem máscaras, a vida.

Que eu não sinta só meu o que é roubado.
Ensina-me a beijar as rosas, sem mordê-las.
E nas noites sombrias, sem estrelas,
ensina-me a dormir um sono sem pecado.

                                                          Ensina-me a calar a força do meu grito.
                                                          Dá-me o tom verdadeiro do meu canto.
                                                          Cerra a boca do meu espanto,
                                                          e adoça-me o olhar de estátua de granito.

                                                          Ruga tardia em rosto desumano,
                                                          sofro a ânsia da paz que recusei.
                                                          Ensina-me a dizer às flores do verde ramo
                                                          que sim, que te encontrei!

Maria Manuela Couto Viana, 1950: «Princípio».
Távola Redonda - Folhas de Poesia - Fascículo 2. Lisboa; [p. 04]
{Eds. consultadas: Távola Redonda – Edição Facsimilada. Lisboa: Contexto; 1989, [p. 20]
A Poesia de Maria Manuela Couto Viana. (Pref. de Esther de Lemos). Lisboa: Átrio; 1993, p. 42.}

* Filha de Manuel Couto Viana (VC, 13/03/1892 - Lisboa, 07/12/1970) e de Maria Romana González de Lena e Carreño (1897-1976), e irmã do poeta e ator António Manuel Couto Viana (VC, 24/01/1923 - Lisboa, 08/06/2010).

Para recordar e/ou ler e/ou ser (mais) informado:

«Maria Manuela Couto Viana […] dá voz à voz da tradição, que já tem expressão no nosso cancioneiro medieval e, mais tarde, no nosso espólio poético-monacal, textos de grande interioridade e destacado individualismo, emotivamente reflectindo, com lírica força ascensional, subjectividades expressivas, desde a mansidão à queixa, desde a paixão à revolta. A poesia de Maria Manuela Couto Viana é paradigmática. Mas a voz da tradição na voz de Maria Manuela Couto Viana não é redutora, antes inspiração para uma menina e moça a caminho da ruptura com a instituída fórmula do viver feminino […].»
F[ernanda] B[otelho], 1996: «”As Fundas Nascentes da Poesia”».
Colóquio/Letras, n.º 142. Lisboa: Gulbenkian; p. 232.

NB1 - Os retratos da poetisa, da autoria de Carlos Carneiro (cabeçalho) e Manuel Couto Viana (poema), são digitalizações de reproduções que se encontram, respetivamente, em A Poesia de Maria Manuela Couto Viana (1993) e em Manuel Couto Viana, 1990: Ferro-Velho - Memórias e Estudos (Vol. II). Viana do Castelo: Câmara Municipal de Viana do Castelo; p. 190.
NB2 - Respeitadas grafia e pontuação das edições consultadas.

quarta-feira, 1 de março de 2017



   Alberto Osório de Castro faz hoje 149 anos.


           VOLER DI CUORE
                             
                                     Que não sabe homem aquela hora
                                     Em que lhe há-de vir o amor.
                                            BERNARDIM RIBEIRO, Éclogas.


Bem quisera, Senhora, que este afecto
Não fosse amor, mas límpida amizade,
Sentimento viril, alto e discreto,
De natural renúncia, e de lealdade.

 Mas é-se homem! E é pobre humanidade
Esta ânsia de tocar o que é secreto
E adorável, de olhar o que é dilecto,
E é toda a luz da vida e suavidade.

Ah! Senhora, ah! Senhora, a Carmelita
É só na voz de amor da Sulamita
Que com Deus fala de divino amor.

Não falo, não, de amor, mas de exaltada
Ternura da alma pela bem-amada
Alma gentil de mistério e de dor.

                                      Novembro, 23, 1921


Alberto Osório de Castro, 2004: Obra Poética (Vol. II).
Organização de António Osório. Lisboa: IN-CM; p. 180.

Para recordar e/ou ler e/ou ser (mais) informado:
«Alberto Osório de Castro - Infopédia» e «Alberto Osório de Castro – Dicionário de Orientalistas da Língua Portuguesa»

«[…] Formou-se em Direito em Coimbra, onde com António Nobre, Alberto de Oliveira e Eugénio de Castro, tomou parte activa na renovação da poesia portuguesa […]. Data de então a sua grande amizade com Camilo Pessanha […]. Os seus quatro livros capitais, todos eles de poesia – Exiladas (Coimbra, 1895), A Cinza dos Mirtos (Nova Goa, 1906), Flores de Coral (Timor, 1908), O Sinal da Sombra (1923) – testemunham uma requintada predilecção pela singularidade, pelo “diferente”, pela morbideza. […] Na composição dos seus quadros poéticos intervêm o precioso e o excepcional, já pela própria natureza dos motivos que o ambiente lhe impõe […], já por uma deliberada procura vocabular. […] Com menos força que na lírica de Pessanha, encontram-se, todavia, nos poemas de A. O. de C. os temas do amor e da morte, do tempo inexorável e inapreensível, tempo espesso em que nada perdura, onde tudo morreu.»

U[rbano] T[avares] R[ODRIGUES], 19783: «Castro, Alberto Osório de».
Em Jacinto do Prado COELHO (dir.), 19783: Dicionário de Literatura. (Vol. 1).
Porto: Figueirinhas; pp. 165 e 164.

NB1 - As fotografias da Poeta foram colhidas em Google+ / Imagens / Alberto Osório de Castro.
NB2 - Respeitadas grafia e pontuação das edições consultadas.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017


   Armando Côrtes-Rodrigues faz hoje 126 anos.



AO SR. CÔRTES-RODRIGUES


Passo no mundo a vivê-lo,
Passo no mundo a senti-lo,
E esta côr do meu cabello
É o vê-lo e o possuí lo.

Passo no mundo a sonhá-lo,
Numa forma de vivê-lo,
E o meu sentido d’olhá-lo
É o sentido de vê-lo.

Só em Mim me concretiso,
E o Sonho da minha vida
Nesse Sonho o realiso.

 E sempre de Mim Presente,
Todo o Meu Ser se limita
Em Eu Me Ser Realmente.

Violante de Cysneiros [Armando Côrtes-Rodrigues], 1915: «Ao Sr. Côrtes-Rodrigues».
Orpheu – Revista Trimestral de Literatura, n.º 2. Directores: Fernando Pessoa / Mário de Sá-Carneiro. Lisboa, p. 126.
[Consulta: 1989: Orpheu / Edição fac-similada. Lisboa: Contexto.]

Para recordar e/ou ler e/ou ser (mais) informado:

«Entre os escritores que comummente mais se estranharia não ligássemos ao Modernismo, destaca-se Armando Côrtes-Rodrigues […]. Foi colaborador de ambos os números de Orpheu, no segundo deles sob o pseudónimo de Violante de Cysneiros, mas na sua obra predomina a nota popular açoriana, em consonância aliás com o interesse que o leva a dedicar-se à etnografia regional, sobre que publicou importantes artigos e monografias. As poesias saídas no Orpheu em seu próprio nome inserem-se sem originalidade no Paulismo […] Mas as subscritas por Violante de Cysneiros, mais afins ao Pessoa ortónimo, predominantemente em quadras, contam-se entre as suas coisas melhores. […]».
Óscar LOPES, 1987: Entre Fialho e Nemésio - II.
Lisboa: IN-CM; pp. 608-609.

Para uma análise do «artifício do disfarce», com evidente cumplicidade de Fernando Pessoa, na colaboração de Orpheu 2*, sob o pseudónimo («heterónimo», segundo Eduíno de Jesus – Biblos, vol. I, 1995, col. 1314)  de Violante de Cysneiros, ler Anna Klobucka, 1990: «A Mulher Que Nunca Foi. Para um retrato bio-gráfico de Violante de Cysneiros», em Colóqui/Letras, n.º 117/118; pp. 103-116.
*Os nove poemas publicados em Orpheu 2 (pp. 121-127), todos datados de «Junho, 1915», são apresentados como sendo «dum anónimo ou anónima que diz chamar-se Violante de Cysneiros» (p. 121), com a seguinte, no mínimo curiosa, «N. B. – Apareceram-nos na Redacção estes belos poemas, que um anónimo engenho doente realisou. Publicamo-los, porque disso são dignos, importando-nos pouco a personalidade vital de que possam emanar. Toda a obra de arte é a justificação de si-própria.» (p. 122)
Violante de Cysneiros / Armando Côrtes-Rodrigues dedica esses poemas a figuras importantes do primeiro modernismo português: Álvaro de Campos, subintitulado «O Mestre» (4), Mário de Sá-Carneiro (1), Fernando Pessoa (1), Alfredo Pedro Guisado (1) e, curiosamente, a si própria(o) (2): «Ao Sr. Côrtes-Rodrigues» - acima reproduzido - e «A Mim Própria / De há dois anos».

NB1 - Fotografias colhidas em Google+ / Imagens / Armando Côrtes-Rodrigues.
NB2 - Respeitadas grafia e pontuação das edições consultadas.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017


   Ruy Belo faz hoje 84 anos.

E TUDO ERA POSSÍVEL

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

Ruy Belo, 1981: Obra Poética de Ruy Belo (vol. 1).
(Organização e posfácio de Joaquim Manuel Magalhães). Lisboa: Presença; p. 171.

Para recordar e/ou ler e/ou ser (mais) informado:
AQUI e «E TUDO ERA POSSÍVEL, dito por Elisabete Caramelo» e/ou «Ler Mais, Ler Melhor – Ruy Belo» e/ou «Ruy Belo, Era uma vez)».

«[…] A poesia de Ruy Belo é uma poesia do fracasso mas não uma poesia fracassada. Cada poema seu é um espaço errante e disperso, homogéneo mas fragmentário, à semelhança da própria vida. De livro para livro, os poemas alongam-se e tornam-se mais pungentes, mais intensamente apaixonados, mas aqui a paixão, se é busca de uma relação amorosa com o real, inclui nela o sentimento da perda irremediável e do espaço mortal da condição finita. O tempo é a instância negativa contra a qual o poeta se levanta num movimento que não atinge jamais a plenitude. […]».
António Ramos ROSA, 1987: «Ruy Belo ou a Incerta Identidade»
Em Incisões Oblíquas. Estudos sobre Poesia Portuguesa Contemporânea.
Lisboa: Caminho; p. 70.

NB1 - Fotografias colhidas em Google+ / Imagens / Ruy Belo.
NB2 - Respeitadas grafia e pontuação das edições consultadas.

sábado, 25 de fevereiro de 2017


   Cesário Verde faz hoje 162 anos.

        ECOS DO REALISMO
               MANIAS!

O mundo é velha cena ensanguentada,
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.

Eu sei um bom rapaz, -hoje
                   uma ossada-,
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância quixotesca.

Aos domingos a deia, já rugosa,
Concedia-lhe o braço, com preguiça,
E o dengue, em atitude receosa,

Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente mão nervosa,
                                               O livro com que a amante ia ouvir missa!

Cesário Verde, 19--3*: Obra Completa de Cesário Verde.
(Organizada, prefaciada e anotada por Joel Serrão). Lisboa: Portugália; pp. 122-123.
[*As 1.ª e 2.ª eds. deste livro saíram, respetivamente, em 1964 e 1970; a 4.ª em 1983, na Livros Horizonte. De recordar que O Livro de Cesário Verde 1873-1886, publicado pelo seu amigo Silva Pinto, saiu em 1887 (Lisboa: Typographia Elzeviriana).
O soneto «Manias» foi publicado, pela 1.ª vez, no Porto, no Diário da Tarde (23/01/1874)].

Para recordar e/ou ler e/ou ser (mais) informado:

«[…] Ele foi o primeiro que fez a anatomia do homem esmagado pela cidade, e para o qual esta contou como elemento da própria consciência, foi o poeta que viveu a cidade, e a trouxe para a poesia, que soube integrar no mundo poético a realidade comezinha, e encontrar o autêntico real através dum tipo inédito de descrição, no qual as coisas entram com tamanho potencial de presença (pela força da sua arte), que se cria, com ele, um novo sentido da imagem poética, como se cria, igualmente, uma nova noção do ritmo que só na poesia moderna, com Pessoa e Sá-Carneiro, ganhará os seus títulos de nobreza. […]».
Adolfo Casais MONTEIRO, 1977: A Poesia Portuguesa Contemporânea.
Lisboa: Sá da Costa; p. 18.

NB1 - Fotografias colhidas em Google+ / Imagens / Cesário Verde e Silva Pinto.
NB2 - Foram respeitadas grafia e pontuação das edições consultadas.



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017


   José Augusto Seabra faz hoje* 80 anos.

[Dois poemas]


A lente não contorna
por dentro toda a margem
de sombra. E desmorona
o centro da miragem
se a pupila demora
a imagem sobre a imagem
da morte contra a morte.

                 *

Quando o corpo desenha
todo o seu outro lado
de sombra, donde vem
aquela frialdade
que a chama não sustém?


José Augusto Seabra, 1996: Sombras de Nada.
(Prefácio - «A Luz da Sombra» - de Eduardo Lourenço). Lisboa: Quetzal; pp. 41 e 47. 

Para recordar e/ou ler e/ou ser (mais) informado:

«[…] O seu primeiro livro intitula-se A Vida Toda (1961). A sua poesia, onde certas marcas ligadas a uma atitude de resistência política são visíveis, ganha uma outra amplitude nos livros seguintes pelo modo como vai ser levado cada vez mais longe um exercício sobre as possibilidades da palavra num espaço privilegiado que a transforma em signo […]. Daí um progressivo esvaziamento do próprio sentido das palavras através de uma desmemória […] ou de uma espécie de jogo que entre elas se estabelece sobretudo pela atenção prestada a uma dimensão significante que acaba por problematizar esse esvaziamento. Paralelamente, o recurso ao poema breve, o qual, por vezes, nos conduz a uma impressão quase pictórica, concorre para que este efeito se produza. […]».

Fernando GUIMARÃES, 2001: «SEABRA (José Augusto)».
Em Biblos – Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa. (Vol. 4)
S/l: Verbo; col. 1207.

* Também fazem anos, hoje, «Rosalía deCastro» e «David Mourão-Ferreira».

NB1 - As fotografias do Poeta foram colhidas em Google+ / Imagens / José Augusto Seabra.
NB2 - Foram respeitadas grafia e pontuação das edições consultadas.