quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

III. Dispersos
III.2. Contos (IV)

O conto que a seguir apresento foi publicado no jornal o diário [«Suplemento Cultural» (ver infra) de 23/03/1986, p. 3]. 


Dada a dimensão da página original (42 X 31,5 cm), a fim de facilitar a leitura da narrativa, procedi aos necessários arranjos, na sua reprodução neste "post". Como segue:



NB - Todos os direitos reservados.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

III. Dispersos


III.1. Poema (LXIX)

             Todos os dias são da poesia e sua partilha, como pão nosso de cada dia


Publicado, sem título, em Limiana - Revista de Informação, Cultura e Turismo (Ano VII - N.º 36), Fevereiro de 2014, p. 10. Este poema encerra artigo de Cláudio Lima, intitulado «David Rodrigues - Poeta Limiano», publicado no mesmo número da referida revista, pp. 8-10.

«cai a chuva» encontra-se também publicado AQUI.

NB - Todos os direitos reservados.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017


   Agostinho da Silva faz hoje 111 anos.

[“Luís o das lembranças amorosas”]

Luís o das lembranças amorosas
devolvidas do céu pois do céu vinham
talvez tenha entendido as valiosas
mensagens de esperança que continham

que todos nossos passos se encaminham
por caminhos de espinhos ou de rosas
ao único real em que detinham
seu pensamento as almas mais ditosas

o do lugar que espaço não contém
o do tempo que marca hora nenhuma
o do sem nome algum que é mal e bem

esse puro não ser que é todo ser
em que inteiro por já livre assuma
a vida que se ganha em se morrer.

Agostinho da Silva, 1989: Uns Poemas de Agostinho.
Lisboa: Ulmeiro; p. 52.

Para recordar e/ou ser (mais) informado: «Agostinho da Silva» e «Portal Agostinho da Silva»


«[…] Não terá porventura Agostinho da Silva alimentado exageradas pretensões, ao fazer […] poemas que não se afiguram “construídos” com deliberação técnica, antes libertos, poesia jorrada espontaneamente, que já é poesia antes de o ser (e daí quem sabe?). E daí quem sabe quanta suspeita nos invade, à leitura desta poesia que, sendo reflexiva, nem por isso é menos lúdica, sendo camoniana (no sentido em que até se parafraseia Camões), nem por isso é menos irónica. Ambígua, esta poesia. […]»

F[ernanda] B[OTELHO], 1989: «E Posto Que Viver Me É Excelente?».
Colóquio/Letras, n.º 112 (Novembro-Dezembro de 1989).
Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian; p. 101.


NB1 - As fotografias do Poeta foram colhidas em Google+ / Imagens / Agostinho da Silva.
NB2 - Foram respeitadas grafia e pontuação das edições consultadas.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

III. Dispersos


III.1. Poema (LXVIII)

             Todos os dias são da poesia e sua partilha, como pão nosso de cada dia.



Ainda não Encontrei Amigo a Palavra*

[Ao Professor Lima de Carvalho]


ainda não encontrei amigo a palavra
prometida apesar das enciclopédias
dos dicionários e livros inumeráveis
ainda não encontrei amigo a palavra
que em dia de pedras anónimas jurei
inscrever contra os insectos da luz efémera
avarentos inebriados de fome incontida
entre as colheitas da seara pródiga
ainda não encontrei amigo a palavra
que em tarde lenta de domingo te prometi
descobrir num poema breve de preferência
redondilha ou verso branco de terra
sal e vento como sentias e sempre desejavas
quando subitamente deixaste de atender
               o telefone e tanto silêncio alto então caiu
               sobre a boca assim nascendo o sabor da ausência
               ainda não encontrei amigo a palavra
               prometida cuja fonte incerta procuro e agora só
               quero entregar-te em mão própria com o abraço
               que daremos na devida altura do nosso reencontro

               David F. Rodrigues
               [Dezembro, 2006]

* Texto destinado ao n.º 3 da revista IPVC-Academia, organizado em memória e homenagem ao Prf. Lima de Carvalho (1928-2006), que todavia não chegou a ser editado.

«Ainda não Encontrei Amigo a Palavra» foi publicado em A Falar de Viana, 2012 (Vol. I, Série 2), Viana do Castelo, Vianafestas; p. 41.

NB - Todos os direitos reservados.

sábado, 11 de fevereiro de 2017


Daniel Filipe faz hoje 92 anos.

O Viajante Clandestino
 

 III

Este é o local, o dia, o mês, a hora.
O jornal ilustrado aberto em vão.
No flanco esquerdo, o medo é uma espora
fincada, firme, imperiosa. Não
espero mais. Porquê esta demora?
Porquê temores, suores? Que vultos são
aqueles, além? Quem vive ali? Quem mora
nesta casa sombria? Onde estão
os olhos que espiavam ainda agora?
O medo, a espora, o ansiado coração,
a noite, a longa noite sedutora,
o conchego do amor, a tua mão…

Era o local, o dia, o mês, a hora.
Cerraram sobre ti os muros da prisão.

 Daniel Filipe, 1974: Pátria Lugar de Exílio.
                                                           Lisboa: Presença; p. 43. [1.ª ed., 1963]


Para recordar e/ou ser (mais) informado:



«Se dizemos que é tempo de fazer regressar ao nosso convívio a poesia de Daniel Filipe, sobretudo a poesia de A Invenção do Amor e outros poemas, falamos apenas em regresso físico – à palavra impressa, ao livro. Em qualquer outra acepção, não há que falar em regresso: os seus poemas estão aí como sempre estiveram – hoje até mais actuais, com uma acuidade mais viva, como se a comunicação que entre eles e nós se estabelece tivesse conquistado uma nova dimensão, ou porque a nossa actualidade se abriu mais à palavra da Daniel Filipe, encontrando-se de súbito mais próxima dessa poesia que funde tão intimamente amor e liberdade. […]»

Francisco ESPADINHA, 1983: «Nota sobre a Invenção do Amor».
Em Daniel Filipe, 19836: A Invenção do Amor e Outros Poemas.
Lisboa: Presença, p. 9. [1.ª ed., 1960]

NB1 - As fotografias do Poeta foram colhidas em Google+ / Imagens / Daniel Filipe.
NB2 - Foram respeitadas grafia e pontuação das edições consultadas.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017


   Bertolt Brecht faz hoje 119 anos.


        A SOLUÇÃO


Após a insurreição de 17 de Junho
O secretário da União dos Escritores
Fez distribuir panfletos na Alameda Estaline
Em que se lia que, por culpa sua,
O povo perdeu a confiança do governo
E só à custa de esforços redobrados
Poderá recuperá-la. Mas não seria
Mais simples para o governo
Dissolver o povo
E eleger outro?

Bertolt Brecht, 1998: Poemas.
[Tradução (com a colaboração de Sylvie Deswart), selecção, estudos e notas de Arnaldo Saraiva]. Porto: Campo das Letras; p. 88.

Para recordar:


«[…] na história da poesia ocidental ele é justamente o primeiro poeta – ou o segundo, se se considerar Maiakovski, cinco anos mais velho do que ele – que de uma maneira sistemática e quase exclusiva reflecte (= espelha; = pensa; = faz retroceder) na sua poesia as causas concretas das dificuldades da vida e da inclemência dos tempos. […]»

Arnaldo SARAIVA, 1998: «Do Pobre B. B.». Em Bertolt Brecht, 1998: Poemas.

Porto: Campo das Letras; p. 7.
[Tradução (com a colaboração de Sylvie Deswart),
selecção, estudos e notas de Arnaldo Saraiva.]


NB1 - As fotografias do Poeta foram colhidas em Google+ / Imagens / Bertolt Brecht.
NB2 - Foram respeitadas grafia e pontuação da edição consultada.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017


   António José Forte faz hoje 86 anos.

PREFÁCIO

Ao nível do mar
como o nome da flor do vinho
murmurado entre relógios de carvão
escrito devagar na cal do silêncio
como o lençol de púrpura
no peito dos amantes
de costas para a morte
ao nível do mar
como um cardume de palavras cintilantes
no horizonte de cinza e de pavor
como um cavalo branco toda a noite
de estrela para estrela
ao nível do mar
como a flor que se abre na boca dos suicidas
                                       um homem
                                       ferido de morte
                                       vai falar

António José Forte, 1987: Caligrafia Ardente.
Lisboa: Hiena Editora; p. 7.

Para recordar:

«A voz de António José Forte não é plural, nem directa ou sinuosamente derivada, nem devedora. Como toda a poesia verdadeira, possui apenas a sua tradição. A tradição romântica, no menos estrito e mais expansivo e qualificado registo. Uma tradição próximo de nós esclarecida pelo surrealismo, abrindo para trás e para diante: imemorial, dinâmica. Única maneira de entender-se uma tradição essencial. Não se trata de modo ou moda, forma ou fórmula, acidentalidade ou incidentalidade. Fala-se da inteligência fundamental do mundo

Herberto HELDER, 1983: «Nota Inútil». Em António José Forte, 1983: Uma Faca nos Dentes.
Lisboa: & etc; pp. 8-9.]

Obs. 1 - Respeitada a grafia das edições consultadas.
Obs. 2 - Os retratos do Poeta, reproduzidos neste "post", foram colhidos em Google / Imagens / António José Forte.

domingo, 5 de fevereiro de 2017


  Alfredo Margarido faz hoje 89 anos.

[«Excessiva a distância»]

Excessiva a distância
alarga a sussurante noite.
Áticos, os gestos
ondulam com as togas.
Venenoso instala-se o medo
nas nocturnas, frias rosas.
Transfiguram-se as faces
dos que vão morrer.

              **

[«Puros mas solitários»]

Puros mas solitários
os homens adormecem.
Sonhando, criam mitos.
                                               Pausadas e cálidas
                                               as vozes das carpideiras
                                               ondulam sobre os campos.
                                               O sonho é a outra face.

Alfredo Margarido, 2011: Poemas com Rosas.
Viana do Castelo: Câmara Municipal de Viana do Castelo / Centro Cultural do Alto Minho; pp. 1 e 3.
{«[…] edição em tudo idêntica à primeira [Lisboa, Edições Árvore, 1953] para remomorar
a obra poética e a presença» do escritor na capital do Alto Minho, anota-se no final do livro.}

Para recordar e/ou ser (mais) informado, ver:


«[…] em Poemas com Rosas […], Alfredo Margarido toma como ponto de partida as Odes de Ricardo Reis, cuja presença é de imediato visível no título e em alguns textos vasados numa sintaxe que se assume como desvio […], através de um recurso sistemático ao hipérbato […]

Fernando J. B. MARTINHO, 1983: Pessoa e a Modera Poesia Portuguesa (Do Orpheu a 1960).
Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa / Ministério da Educação; p. 133.

Obs. 1 - Respeitada a grafia das edições consultadas.
Obs. 2 - Os retratos do Poeta, reproduzidos neste "post", foram colhidos em Google / Imagens / Alfredo Margarido.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Almeida Garrett faz hoje* 218 anos.

ESTE INFERNO DE AMAR

Este inferno de amar – como eu amo!
Quem mo pôs aqui n’alma… quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida – e que a vida destrói –
Como é que se veio a atear,
Quando – ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez… - foi um sonho –
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! Que doce era aquele sonhar…
Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei… dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
                                                                Que fez ela? eu que fiz? – não no sei;
                                                                Mas nessa hora a viver comecei…

Almeida Garrett, 1998: Folhas Caídas.
(Introdução por Maria Ema Tarracha Ferreira). S/l: Ulisseia; p. 118.

Para recordar:

«[…] Arredando os assuntos convencionais e as cenografias obrigadas quer do classicismo quer do romantismo literário, o poeta mete pelo verdadeiro caminho não só do romantismo superior como, afinal, de toda a grande poesia: que é fazer arte da sua dor e do seu sonho, isto é: mergulhar na experiência pessoal as raízes dos seus poemas. […] Isso deu às Folhas Caídas uma vibração e uma sinceridade que explicam o seu poder duradouro. […].»
José RÉGIO, 19764: Pequena História da Moderna Poesia Portuguesa.
Porto: Brasília Editora; p. 17.]

* Hoje, Jacques Prévert faz 117 anos. Poeta francês (Neuilly-sur Seine, 1900 - Omonville-la-Petite, 11-04-1977), Paroles (1946) é o seu livro de poemas mais conhecido, publicado logo após a 2ª grande guerra (1939-1945). Da sua edição (bilingue) portuguesa (Palavras / Paroles, Lisboa, Sextante, 2007), com tradução por Manuela Torres, transcrevo:

«O RAMO DE FLORES // Que fazes aí menina / Com essas flores recém-colhidas / Que fazes aí rapariga / Com essas flores já secas / Que fazes aí mulher bonita / Com essas flores que murcham / Que fazes aí velha / Com essas flores já mortas // Espero o vencedor.» [p. 307].

Obs. 1 - Respeitada a grafia das edições consultadas.
Obs. 2 - Os retratos do Poeta, reproduzidos neste "post", foram colhidos em Google / Imagens / Almeida Garrett.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017


Georg Trakl faz hoje 130 anos.

VENTO SUÃO

Lamento cego no vento, dias lunares de inverno,
Infância, baixinho morrem os passos junto à sebe negra,
Longo toque de sinos ao anoitecer.
Baixinho vem aí a noite branca,

Transforma em sonhos purpúreos dor e martírio
Da vida pedregosa,
Que o ferrão espinhoso nunca deixe o corpo a decompor-se.

Fundo no sono suspira a alma medrosa,

Fundo o vento em árvores partidas,
E vacila a figura lamentosa
Da mãe pelo bosque solitário

Deste luto calado; noites,
Cheias de lágrimas, de anjos de fogo.
Argênteo despedaça-se contra um muro nu um esqueleto infantil.

Georg Trakl, 1981: PoemasPorto: O Oiro do Dia; p. 117.
[Antologia (bilingue). Prefácio de Ludwig Scheidel. Versão portuguesa e introdução
de Paulo Quintela, de edição em alemão, Salzburgo 1969.]

«[…] Tudo em Trakl – os homens, as coisas, as imagens que os sugerem ou os evocam, os cheiros, os sons e as cores (ou os sons coloridos e as cores sonoras) – pertence a um mundo de corrupção, de decadência, de podridão, de nojo e de ruína. As cores sobretudo ganham independência e valor simbólico, têm validade própria, desligadas dos objectos ou dos seres; são, por si, evocativas de mundos inteiros de representações. […].»
Paulo QUINTELA, 1981: «A Poesia de Georg Trakl / 1887 – 1914».
Em Georg TRAKL, 1981: Poemas. Porto: O Oiro do Dia; p. 31.

Obs. 1 - Respeitada a grafia da edição consultada.
Obs. 2 - Os retratos do Poeta, reproduzidos neste "post", foram colhidos em Google / Imagens / Georg Trakl.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017


 Tomaz Kim faz hoje 102 anos.

CANTO TERCEIRO [*]


6

Quando a morte vier, meu amor,
fechemos os olhos para a olhar por dentro
e deixemos aos nossos lábios o murmúrio
da palavra branda jamais pronunciada
e às nossas mãos a carícia dispersa;
relembremos o dia impossível,
belo por isso e por isso desprezado,
e esqueçamos o que nos não deixaram ver
e o resto que sobrou do nada que possuímos;
deixemos à poesia que surge
o pranto de quem a trocou para comer
e os passos sem rumo pelas ruas hostis;
deixemos à carne o que não alcançámos,
e morramos então, naturalmente…

Tomaz Kim, 2001: Obra Poética.
Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda; p. 206.
[* Incluído, inicialmente, na coletânea Dia da Promissão,
Lisboa, «Cadernos de Poesia», 1945.]


«[…] Fundador e co-director da 1.ª série dos «Cadernos de Poesia», Tomaz Kim (pseudónimo de Joaquim Fernandes Tomaz Monteiro-Grillo) […] começou a publicar a partir de 1939. Autor de formação anglo-saxónica – tendo vivido e estudado na Cidade do Cabo, em Lisboa e em Londres - , o poeta {é  […]} naturalmente marcado pela poesia britânica do seu tempo […]. / […] / Praticando um estilo assente em versos relativamente límpidos, aproveitando sabiamente a respiração de certas pausas, reticências ou repetições anafóricas destinadas a criar efeitos rítmicos que todavia nunca cedem à musicalidade mais fácil, a poesia de Tomaz Kim não pretende chocar o leitor ao nível da linguagem, vivendo sobretudo de algumas sugestões habilmente urdidas por um sentido integrador que se mantém atento à coerência de cada poema e lhe confere a sua unidade. […]»
Fernando Pinto do AMARAL, 2001: «Prefácio».
Em Tomaz KIM, 2001: Obra Poética.
Lisboa: IM-CM; pp. 7 e 8. 


Obs. 1 - Respeitada a grafia da edição consultada.
Obs. 2 - Os retratos do Poeta, reproduzidos neste "post", foram colhidos em Google / Imagens / Tomaz(-ás) Kim.