quarta-feira, 22 de outubro de 2014



anda este orfeu
amigo meu
com paciência
de corno tal
ou seja dor
que tanto vale
por causa dessa
sabida eurídice

que só visto

à lira preso
como possesso
ao canto dado
de enamorado
que não desiste
eternamente
sempre tão triste

e ela feliz
toda contente
indiferente
só quer orgias
e mais folias
em bacanais
com imbecis
e outros que tais

uns jograletas
com a mania
que são poetas
pobres coninhas
cujas versinhas
mal amanhadas
reles punhetas
são de picinhas

eu no lugar
dele coitado
abandonado
há muito tinha
de vez mandado
levar no cu
essa morrinha
de merda toda

e ela mandado
para o caralho
que bem a foda

david f. rodrigues
viana, 24-03-2014


Publicado, sem título, com a numeração «vii», em estes cantares fez & som escarnhos d'ora. Viana do Castelo: ed./a., 2015/2016, pp. 17-18.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

I. Poesia em livro




Todos os dias são da poesia e sua partilha, como pão nosso de cada dia.

[Continuação do post anterior, dentro da mesma rubrica]


[Continuará]



domingo, 19 de outubro de 2014



Ao Adélio Melo


se o animal dito com razão
perder a racionalidade
não deixa por isso de ser homem

agora experimenta viver
sem a tua animalidade

estou já certo que depois
lázaro nem por milagre
me contarás a única experiência
de vida racional para que passaste

david f. rodrigues
viana, 19-10-2104
[Atualizado em 19-10-2017]

Todos os direitos reservados.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

quinta-feira, 16 de outubro de 2014



a rapariga parece mesmo
deus me perdoe se peco
um triste pau de virar tripas
disse a primeira comadre

mas também casar hoje assim
num dia de chuva a cântaros
é só de quem se lambe toda
por papas de farinha de milho
cabaneirou a segunda comadre

ai tenha o rapaz espigueiro cheio
de grão para moer em farinha
e dentro de três quatro meses
vamos tê-la já bem gordinha

concordavam as duas comadres
e as outras que óó as acolitavam

passados vinte anos contudo
os sogros de ambos os lados ainda
não sabem o que é ter um neto

a encher a tripa de rojões a dedo
continua por isso a nora enquanto
o genro cada ano mais difícil vê
quem lhe queira mercar os grãos

david f. rodrigues
viana, 16-10-2014



Publicado depois, sem título e a numeração «xlvii», em estes cantares fez & som escarnhos d'ora (2015/16). Viana do Castelo: ed./a., p. 72.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014


por natureza o poeta
não é um fala-barato

quando muito sabe tratar-se
tão só dum consciente fala-só

os sons que por ventura dele
nos chegam ecos distantes são
de pensar em poema frequente

raro é por isso e feliz aquele
que em tais circunstâncias especiais
pode ouvi-lo clara e distintamente

sai muito cara sempre
ao poeta toda a palavra

david f. rodrigues
viana, 15-10-2014



NB - Publicado depois, sem título, com a numeração «14.», em o rosto, Leça da Palmeira, Eufeme, n.º 14 da coleção «Poetas da Eufeme», 2018, p. 24.

IV. Frutos da Terra e do Homem


Poesia limiana selecionada por poetas limianos*


Álvaro Feijó**

Seleção e nota biobibliográfica: David F. Rodrigues




«Nasci numa manhã com neblina de bronze
sobre o rio.
O Sol era uma incógnita na bolsa esverdeada do horizonte
e, embora primavera, uma manhã de outono.»

[Os Poemas de Álvaro Feijó, 1961: 32]


Com esta estrofe, dá início Álvaro Feijó ao breve poema «Registo», datado de 1939. Nela, o poeta como que perspetiva o seu brevíssimo percurso de vida: uma manhã de primavera que logo fica outono. Nascido em Viana do Castelo, a 5 de julho de 1916, morre, em Lisboa, a 9 de março de 1941, três meses antes de completar 25 anos de idade. Filho de família aristocrática vianesa, Álvaro Feijó fez os estudos secundários num colégio jesuíta da Galiza. Transitou, depois, para Coimbra, onde frequentou a Faculdade de Direito. É sobrinho-neto de António Feijó (1859-1917) e sobrinho direito de Salvato Feijó (1876-1959), escritores naturais de Ponte de Lima.
Publicou, em vida, apenas um livro de versos – Corsário (1940). Preparava a edição de Diário de Bordo, quando a tuberculose o vitimou. Deve-se a Rui Feijó, seu irmão, e a amigos e companheiros de Coimbra, não ter caído no esquecimento a parca mas significativa obra poética que produziu. Com o espólio fornecido pela família e namorada, Joaquim Namorado e João José Cochofel reuniram, em 1941, Os Poemas de Álvaro Feijó (Coimbra, col. «Novo Cancioneiro»), prefaciados por Armando Bacelar. Além de Corsário e Diário de Bordo, Namorado e Cochofel selecionaram de Desgarradas (três cadernos de inéditos autógrafos do jovem poeta) um conjunto de poemas a que deram o título de «Primeiros Versos». Em 1961, sai a 2.ª edição (Lisboa, Portugália), com prefácio de João José Cochofel e posfácio de Rui Feijó. Na organização desta edição, considerada ne varietur, Cochofel contou com a colaboração de Carlos de Oliveira. Seguiram-se mais três edições, o que mostra o reconhecimento da sua obra.
Duas orientações principais se encontram na poesia de Álvaro Feijó. Uma, presente sobretudo nos seus primeiros versos, está centrada no eu e no amor (dividido entre o espiritual e o carnal), ao lado, por vezes, de um humanismo idealista. Marcada ainda por influências da poesia do tio-avô, além de outros poetas dos finais do século XIX, tal orientação está ainda presa a formas tradicionais de composição, a nível estrófico, métrico e mesmo temático. Uma segunda orientação, presente sobretudo em Corsário e Diário de Bordo, revela-nos um poeta já solto das «amarras» formais tradicionais. Recorre ao verso livre, os seus poemas são mais discursivos, mais naturais, mais espontâneos. Acentua-se a sua atenção ao real quotidiano e aos problemas sociais e humanos, fruto certamente do convívio próximo que, em Coimbra, manteve com os poetas do emergente neorrealismo português, de quem foi, aliás, companheiro e amigo: Políbio Gomes dos Santos, Joaquim Namorado, Fernando Namora, Carlos de Oliveira e João José Cochofel, entre outros.
A seleção dos poemas que a seguir se apresenta procura mostrar, dentro das limitações possíveis, as referidas orientações do poeta.
[As pp. indicadas de localização de cada poema referem-se à 2.ª ed. da obra (1961). Respeitei a grafia do original consultado. O disposição gráfica do texto e sua ilustracão sofrerão, nesta edição, várias alterações.]





* Publicado em Limiana – Revista de informação, cultura e turismo, n.º 39 (ano VIII), 2014, pp. 26-27. Esta publicação (bimestral) é editada pela Casa do Concelho de Ponte de Lima, com sede em Lisboa, sendo seu diretor José Pereira Fernandes.
** O retrato do Poeta acima reproduzido é uma gravura em madeira, de Somar,  em Os Poemas de Álvaro Feijó, 1941.