domingo, 5 de outubro de 2014



prometem-me o reino
dos céus depois de morto

se durante a vida porém
sempre me portar bem

mas sendo eu republicano convicto
como é então pergunto

chegado ao paraíso por ter sido
coerente como sempre fui
vou levar com a porta na cara

david f. rodrigues
viana, 05-10-2014





Publicado também em estes cantares fez & som escarnhos d'ora, 2015/16. Viana do Castelo: ed./a., p. 59. 



misericórdia & obras


1

ilustres políticos e seus devotados conselheiros
profetizam que dentro de dias ou talvez
menos os miseráveis ainda sobreviventes
deixarão de existir à face da terra e assim
termine a vergonha em todos que
de uma vez por todas lhes puseram fim


2

o fom&gerado flagelo do desemprego
contudo vai por força desta conjuntura
crescer entre os ativos voluntários
em virtude dos pródigos prodígios de
reabilitação social sem fins lucrativos
que em instituições e associações
de solidariedade & afins se dedicavam

deixarão pois de ter & ser ocupação
que em rigor possa ser & ter estatuto social
mente útil dentro dos parâmetros
definidos pelos infalíveis estatísticas oficiais


3

por outro lado com o desaparecimento
definitivo do último miserável pedinte
mendigo faminto indigente & companhia
os beneméritos correm o sério risco de jamais
alcançar a bem a venturança do reino celestial
uma vez que não poderão praticar as sete
redentoras obras de misericórdia corporais
ministradas nas lições da catequese
infalivelmente decoradas e praticadas
nos bancos arcas baús caixotes
e caixas da cera existentes na sacristia


4

que as outras sete obras ditas espirituais
das catorze verdadeiramente quem delas
mais precisa são os que delas não precisam
e por isso a sua generosa oferta dispensam
humildemente em próprio benefício


5

resta por isso aos ditos beneméritos e barra
ou seus patronos que continuam a acreditar
na conquista por este meio da eterna glória
por que lutam e dedicadamente apregoam
resta-lhes dizia conhecer e reconhecer
por inalienável experiência pessoal
a hiperdesumana condição de miséria
dos tantos indigentes a quem antes
devota e devotadamente socorriam


6

reza o evangelho que cristo garantiu
e eu creio ser mais fácil enfiar um camelo
mas um famélico burrinho também serve
pelo buraquinho da agulha da costureira
que um desses ricos generosos atravessar
à larga a porta estreita do paraíso

mesmo que neste seu rico mundo tenham sido
e vivido sempre espiritualmente pelo menos
em verdadeira condição de pobres de espírito


7

assim sendo pois eternamente sejam
como tais reconhecidos por deus
ou por quem suas vezes faça segundo
a sua inexorável serena e irrevogável justiça

per omnia sæcula sæculorum

david f. rodrigues
viana, 06-06-2014





Obs. - Publicado também, sem título, com a nymeração «xxiv», em estes cantares fez & som escarnhos d'ora, 2015/16. Viana do Castelo: ed./a., pp. 41-3.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

I. Poesia em livro


Todos os dias são da poesia e sua partilha, como pão nosso de cada dia.


 NB – Prosseguindo a reedição online da poesia publicada em livro, começo hoje o rito do pão (1981), depois de reeditados grãos de poesia (1972) e Vibração de Nervos (1976). Para não sobrecarregar cada post, não são publicadas as páginas em branco e as margens foram reduzidas.

NB1 - Para ampliar, clicar sobre cada diapositivo.



 
 




[Continuará]

quinta-feira, 2 de outubro de 2014



português suave



traz medalha de latão
bem pregada na lapela
mantém trapo desfi(gur)ado
pendur(ic)ado no peitoril da janela

quando porém o vento lhe pega
mais forte desfralda-se voa e logo cai

mas não o reconhece como seu

é português suave convencido
lusitano nacionalista e patriota
e sempre feliz de cu ao léu

david f. rodrigues
viana, 25-04-2014


Publicado, depois, sem título, com a numeração «xxv», em estes cantares fez & som escarnhos. Viana do Castelo, 2015/2016, e./a., p. 44.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014





os alvos lençóis estão esta manhã
como pano de parede nua após noite
de inexperiente delírio pictural

é preciso por isso comprar uma nova
lata de cal tinta branca ou creme e amor
verificar se os pincéis rolos e trinchas
ainda estão em boas condições de prova

enquanto preparo para ambos um reforçado
pequeno almoço à base de frutas ovos leite
e pão quente antes de mais uma e outra vez
nos darmos à recomposição deste disperso leito

david f. rodrigues
viana, 01-10-2014

terça-feira, 30 de setembro de 2014

IV. Frutos da Terra e do Homem


Pedro Homem de Mello
no Roteiro de Viana*


David F. Rodrigues


  
            Roteiro de Viana foi uma revista que se publicou, em Viana do Castelo, entre 1959 e 1988. Saía no mês Agosto, dedicada à célebre Romaria da Senhora da Agonia. Foi seu fundador, editor e diretor José Camilo Pastor (1911-1988)(1).
            Cada número, num total de três dezenas, abre com «uma saudação dirigida aos forasteiros em visita à cidade atraídos  pelas Festas e um agradecimento aos colaboradores e anunciantes […]. Na sua estrutura gráfica evidencia-se uma certa homogeneidade mantendo-se como elemento caracterizador uma forte presença de anúncios publicitários que extravasam os limites da região e são o seu suporte financeiro, intercalados aqui e ali por diferentes trabalhos na sua maioria de âmbito turístico-cultural, versando temas relacionados com a arqueologia, a etnografia, a etnologia, o artesanato, a história, o património e a literatura com especial destaque para a poesia e conto, salientando-se como preocupação fundamental a promoção da cidade de Viana do Castelo, com algumas incursões noutras localidades do Alto Minho.» [Viana & Fernandes, 2002/2003: 255(1)]

                                  N.º 1 - 1959                                                                N.º 30 - 1988

            No âmbito da literatura, cabe referir que se encontram no Roteiro textos de criação literária (poemas e contos) e breves estudos sobre alguns poetas e escritores. No domínio da poesia, são 86 os poemas autónomos. Dois, porque recolha do folclore, não estão assinados: «Cancioneiro Vianense / Todos me querem» (1959: 81(2)) e  «Cantigas Populares (Das sargaceiras)» (1967: 148(2)). Os restantes 84 encontram-se identificados pelos nomes dos autores, por pseudónimos ou apenas por iniciais. Os poetas colaboradores eram vivos, na sua quase totalidade. De falecidos, encontramos poemas de Digo Bernardes [sé. XVI, («Vale do Lima», soneto XXXI, em 1962: 81(2), repetido em 1984: 159(2))], João da Rocha [1868-1921, («Ao Rio Lima», 1967: 51(2))] e Rosalía de Castro [1837-1885, («A Gaita Galega», 1987: 113(2)). Nos anos de 1970 a 1972, foram reproduzidos poemas de Agostinho Veloso, falecido em fevereiro de 1970, entretanto saídos noutras publicações. Agostinho Veloso colaborou no Roteiro, com textos em verso, ininterruptamente, desde 1961.
       De entre os poetas vivos que publicaram no Roteiro, alguns nomes merecem ser destacados, pela qualidade dos seu poemas e pela sua relativa projeção nacional e/ou regional. Temos, por um lado, António Correia de Oliveira (1878-1960) e Pedro Homem de Mello (1904-1984), e, por outro, Carlos Lobo de Oliveira (1895-1973) e Castro Gil, pseudónimo de Amadeu Torres (1924-2012).

            Tratarei, neste apontamento, apenas dos poemas que Pedro Homem de Mello publicou no Roteiro.

Afife tem 5 letras
Pedro 5 letras tem...
Até o meu triste nome
Com Afife rima bem!

            Esta quadra de sabor popular (redondilha maior), com o título de «Eco» e um certo sabor narcisista, encontra-se no Roteiro de 1971: 33(2). Não a encontrei nos cerca de trinta livros de poesia que o poeta publicou, antes ou depois desta data. O mesmo se passa com «Rua» e «Vitória», poemas publicados apenas, respetivamente, nas revistas de 1962: 52(2) e de 1965: 48(2). Há , porém, na obra de Pedro Homem de Mello, poemas com estes títulos, mas não com as redações dos que se encontram no Roteiro. Os que aqui se encontram são os seguintes:
  
Rua
Vitória

Rua que só tens mãos para dar palmas
E ao eco dos aplausos adormeces.

Ó rua surda às lágrimas e às preces!
Mar de cabeças que é deserto de almas.

Rua de sempre,
Eternamente inquieta.
Búzio de Satanaz.
Pátria do medo.
Onde nunca o murmúrio de um segredo
Iluminará a face do Poeta.

Ó rua inevitável que me espera!
Rua! Sinto-lhe a sombra, o bafo, a gula...

Rua. Peso de ferro que me anula
A mim, que sou o irmão da Primavera!

De hoje
A vinte anos,
Quando eu fôr
Ainda,
O bailador maior da Serra de Arga,
E tu,
Frágil saudade,
Quase finda,
No vale apenas,
Uma sombra,
Amarga

Verás,
Então,
Como envelhece o Povo
E como, nele, as rugas chegam cedo.
E eu cantarei, feliz,
E cada vez mais novo!

Por ter amado, sempre,
Mas sem medo...

Afife, 1936

            Além destes, Pedro Homem de Mello publicou ainda, no Roteiro, mais cinco poemas, cujas referências anoto no quadro seguinte:

Poema
Ano
Pg.*
1) «De Viana vêm os cravos e os lilazes»
2) [«O Lima foge entre os meus dedos vãos» -1º verso]
3) «Embarque»
4) «Almocreve»
5) «Calvário»
1960
1968
1969
1970
1972
2
61
164
243
61

            Dos oito poemas publicados, apenas um traz a indicação de inédito - «Almocreve» (1970) - que, contudo, aparece incluído, com novo título e outras alterações, na coletânea Desterrado. Este livro (em edição de autor) veio a lume e foi posto a circular, possivelmente, em agosto do mesmo ano, uma vez que a sua composição e impressão são dadas como concluídas em 30 de julho.


            No quadro seguinte, indico o livro onde cada um destes poemas foi publicado. Mantenho a numeração da primeira coluna, mas modifico o título do poema, nos casos em que tal se verifica.

Poema
Livro
Ano
Pg.
1) «Carta a Ruben»
2) «Um rio foge»
3) «Embarque»
4) «Conquista»
5) «Calvário»
O Rapaz da Camisola Verde
As Perguntas Indiscretas
Miserere
Desterrado
Eu Desci aos Infernos
1954
1968
1948
1970
1972
57-58
57-58
94
29
44

            Temos, assim, que três poemas mudaram de título: «De Viana vêm os cravos e os lilazes», no Roteiro de 1960, era «Carta a Ruben», em O Rapaz da Camisola Verde (1954); o poema sem título do Roteiro de 1968 chama-se «Um rio foge», em As Perguntas Indiscretas (1868), mas onde, em dois versos (1.º e 9.º) a palavra «rio» substitui ou foi substituída pela palavra «Lima»; e «Almocreve», no Roteiro de1970, passa a «Conquista», no Desterrado (1970).

            Dois destes poemas, porém, sofreram significativas alterações na sua estrutura: «Embarque» e «Almocreve»/«Conquista». Começo por apresentar este último, colocando na coluna da esquerda a versão (ainda inédita) saída no Roteiro e, na coluna da direita, as alterações encontradas no livro.

«Almocreve» - Roteiro (1970)
«Conquista» - Desterrado (1970)

Vendo todos os meus versos
– Poeta de compra e venda!
Zomba de mim – mas os versos
Haverá quem os entenda?
Vendo na rua, ao balcão,
E, às vezes, até na praia!
E o dinheiro que eles dão
Logo, frívolo, desmaia...
Riem tulipas na jarra
Do quarto onde ambos dormimos
E a paz – uma paz bizarra!
Põe-nos, nas pálpebras, limos...
E acordo, só, se outra rima
Lembre, de súbito, a feira
Em que a luta quando anime
Torne a vida, verdadeira.
Bailo então, porém, sòzinho
Como os Poetas  que o são.
E o oiro sabe-me a vinho...
E os versos sabem-me a pão!

(Inédito)

Verão de 1970

….................................................
«Poeta de compra e venda»
Zomba de mim.
                          Mas os versos
…..................................................
…..................................................
…..................................................
…..................................................
Sonham tulipas na jarra
…..................................................
E a paz – uma paz bizarra! –
…..................................................
…..................................................
Lembra, de súbito, a feira.
«- Acima, Gageiro, acima!
Vê se vês a Pátria inteira!»
Por fim, bailo. Tão sòzinho
…...................................................
…...................................................
…...................................................



Amália e Pedro Homem de Mello (dançando)

            «Embarque» é, muito provavelmente, o poema mais conhecido de Pedro Homem de Mello e, certamente, o mais popular. Não com a estrutura com que inicialmente o publicou em Miserere (1948) e transcrito no Roteiro (1969). Além disso, o título por que hoje é mais conhecido - «Havemos de ir a Viana» - era, originalmente, «Embarque». Como se sabe, este poema foi depois interpretado como fado por Amália Rodrigues, com música de Alain Oulman. Eis as duas versões:

Miserere (1848) e Roteiro (1969)
Versão cantada por Amália

Embarque

Se o meu sangue não me engana
Como engana a fantasia
Havemos de ir a Viana
Ó meu amor de algum dia!

E entre sombras misteriosas
Em rompendo ao longe estrelas
Trocaremos nossas rosas
Para, depois, esquecê-las.





Portanto, de flor ao peito
Partamos hoje... Amanhã
Pode o pomar já desfeito
Não nos dar toda a maçã.




Ciganos! Verdes ciganos!
Deixai-nos com esta crença:
- os pecados têm vinte anos?
Os remorsos têm oitenta!


Havemos de ir a Viana

Entre sombras misteriosas
em rompendo ao longe estrelas
trocaremos nossas rosas
para depois esquecê-las.

Se o meu sangue não me engana
como engana a fantasia
havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia
ó meu amor de algum dia
havemos de ir a Viana
se o meu sangue não me engana
havemos de ir a Viana.

Partamos de flor ao peito
que o amor é como o vento
quem pára perde-lhe o jeito
e morre a todo o momento.

Se o meu sangue não me engana
etc., etc.

Ciganos , verdes ciganos
deixai-me com esta crença
os pecados têm vinte anos
os remorsos têm oitenta.


            José Maria Lacerda e Megre compilou e reproduziu, em Manuscritos e Outros Inéditos de Pedro Homem de Mello (20112: 14-15; 1.ª ed. 2004), o manuscrito deste poema, tal como, certamente, foi entregue pelo poeta aos autores do fado-canção, com as alterações pedidas e/ou sugeridas. Eis a reprodução do referido manuscrito:


       Além do título, verificam-se algumas outras modificações, na redação para ser cantada, a nível da estrutura estrófica e de palavras. Na versão do fado, a 1.ª estrofe de «Embarque» passa a refrão, em «Havemos de ir a Viana». A quadra, porém, é repetida (passando, por isso, a oitava), com os versos 3 e 4 repetidos em ordem inversa, ou seja: verso 5 = 4 e 6 = 3, mas verso 7 = 1 e 8 = 2. A alteração mais significativa encontra-se, todavia, na terceira quadra, que recebe, na prática, uma nova redação, de conteúdo amoroso mais adequado ao fado e melhor acentuação métrica.

            É sabido que Pedro Homem de Mello foi, muito provavelmente, o poeta contemporâneo de projeção nacional que mais cantou a região do Alto Minho, em geral, e de Viana do Castelo, em particular. Nomeadamente Afife, onde possuía a Quinta de Cabanas (outrora convento) e onde passava, todos os anos, largos períodos. Com se leu e de novo se pode ler no poemas seguinte:

Canção de Viana
               ao Domingos de Carreço

Eu sou de Viana, cidade.
Eu sou de Viana que é vila.
Sou de Viana e sou da aldeia
Sou do monte e sou do mar.
A minha terra é Viana!
Quem diz Viana, diz Cerveira,
Quem diz Cerveira, diz Agra…
- Só dou o nome de terra
Onde o da minha chegar!

Dancei a Gota em Carreço,
O Verde Gaio em Afife
(Dancei-o devagarinho
Como a lei manda bailar!)
Dancei em Vile a Tirana
E dancei em todo o Minho
E quem diz Minho, diz Viana…

Ó minha terra vestida
Da cor da folha da rosa!
Ó brancos saios de Perre
Vermelhinhos na Areosa!
Virei costas à Galiza;
Voltei-me antes para o sul…
Santa Marta! Trajo Verde…
(Como o povo era poeta
Àquele trajo (tão verde!)
Deram-lhe o nome de azul…)

Virei costas à Galiza
Voltei-me antes para o mar…
Santa Marta! Saias negras…
Mas como o povo é poeta
Aquelas saias tão negras
Têm vidrilhos de luar!

Virei costas à Galiza…
Pus-me a remar contra o vento!…
Santa Marta! Saias rubras…
Ó Santa Marta vestida
Da cor do meu pensamento!

A minha terra é Viana,
São estas ruas compridas,
São os navios que partem
E são as pedras que ficam…
É este sol que me abrasa,
Estas sombras que me assustam…
A minha terra é Viana.

Ai! Este sol que me abrasa
E estas sombras que me assustam!(3)



(1) Para mais informação sobre a revista e o seu fundador, ver Viana, R. A. F. & Fernandes, A. I. R., 2002/2003, separata de Estudos Regionais, n.º 23/24: 253-257.
(2) Nenhum Roteiro traz paginação. O n.º indicado, todavia, sempre ajudará a localizar o poema, em eventuais consultas.
(3) Pedro Homem de MELLO, 1942: Pecado. Lisboa: Edições Gama, pp. 51-54. (Pref. de José Régio.) Também em P. H. MELLO, 1983: Poesias Escolhidas. Lisboa: IN-CM, pp. 54-55.
NB – Em todas as citações, transcrições e referências, respeitei a grafia das edições consultadas. 

* Este texto foi publicado, inicialmente, na revista A Falar de Viana, 2014, pp.183-189. A sua reedição, neste blogue, sofreu, naturalmente, ligeiras alterações de apresentação gráfica.