quinta-feira, 8 de maio de 2014




NB - Publicado depois, sem título, apenas com a numeração «2.», e ligeiras alterações de redação, em o rosto, Leça da Palmeira, Eufeme, n.º 14 da coleção «Poetas da Eufeme», 2018, p. 10. 

quarta-feira, 7 de maio de 2014

IV. Frutos da Terra e do Homem






Em torno da interrogação na poesia de Jorge de Sena
[Fica, neste post e seguintes, estudo inicialmente publicado (apenas texto), em 1998,
na revista Mealibra. Cfr. RODRIGUES, 1998.]


Por que pergunto, se já sei por quê?
SENA, 19772: 210
  
O recurso à interrogação é uma constante na poesia de Jorge de Sena. Raro é o poema em que o poeta não apresenta, pelo menos, uma realização interrogativa, não faltando poemas totalmente constituídos, construídos, por uma sequên­cia de interrogações. O próprio Jorge de Sena, sempre leitor e crítico atento também da sua própria arte poética, o afirma:

[] acontece que o homem – se pode viver e criar ab­stracções – é pelo rosto e pelos seus gestos, e pelo que ele, com o olhar transfigura, que podemos, interrogativa­mente,  incerta­mente,  inquietamente,  angustiadamente,  co­nhecer-lhe a vida. E, se não fora a poesia olhando a História, nenhuma vida em verdade conheceríamos, nem a nossa própria. (SENA, 19882: 157. Destaque meu.)

Ou, então, no poema

DIZ-ME, SILÊNCIO…”

Diz-me, silêncio, em ruídos permanentes
singelamente confusos primitivos –
que mão estender à voz que ouvida não
fala comigo ou com ninguém, silente:
Devo tocar como quem chama e pede?
Ou agarrar o que não fala ainda
senão por gestos quase imperceptíveis?
Esperarei perguntas sem resposta?
Responderei perguntas não faladas?
Diz-me, silêncio, em ruídos de que és feito,
como entender-te quando és corpo humano? [SENA, 19892: 217]


           E no IV soneto da «Heptarquia do Mundo Ocidental», que con­tinua os três sonetos anteriores, todos eles marca­dos também por várias interrogativas, onde a própria con­strução e organização do poema é já de si reveladora do espírito inquieto, interrogativo, angustiado e dialéctico do poeta.

Mas que se trai traindo? Que traís
quando trocais por nada o nada que é
ser-se fiel ao que passou por nós?
A mim traís? A vós? Aos nomes falsos

em que se oculta o roubo do existir?
E que passou? Que não passou? Que foi
roubado ou não roubado a cada instante?
Traís a cada instante? Que traís?

Fiel eu serei sempre a uma resposta.
Mas, respondendo, tendo estas palavras
que negam outras como quem se nega

a não negar senão o que não tem,
responderei àquilo que pergunto.
E sei que sou fiel não perguntando. [SENA, 19892: 41]

          Apesar desta frequente utilização da interrogação, apenas alguns críticos notaram, apenas anotaram, esta indelével marca da poesia seniana. Entre os inúmeros estudos dedicados à obra do autor, nenhum encontrámos que trate desenvolvidamente esta problemática. E entre aqueles que apenas o (a)notam, só dois o fazem explicitamente.
            Frederick G. Williams, amigo e colega do poeta na Universi­dade de Santa Bárbara, Califórnia, refere a utilização da «pergunta retórica», como uma das «influências barrocas» na poe­sia de Sena, para depois, ao proceder ao levantamento dos recur­sos estilísticos, verificar que ela «aparece repetidas vezes dentro do mesmo poema em quase todos os poemas dos livros todos». O crítico apresenta, de seguida, alguns exemplos e por aí se fica. [Cfr. AA. VV., 1981: 111 e 115]
           Outra referência, breve, mas procurando dar já uma inter­pretação semântica e pragmática da interrogação seniana, encontra-se em Fátima Freitas Morna:

Lentamente, ao longo dos anos e dos textos, a poesia de Jorge de Sena vai cumprindo a sua vocação especial de voz entre vozes. Depois de uma certa euforia declarativa, a sua modulação indagativa encontra a magistral formulação do poe­ma “Tendo lido uma carta…”:

                                   “Apenas sou pergunta,
                                    e, sendo eu, me esqueço ao perguntar.”

Poesia que interroga, voz funcional ocupando um lugar no mundo, sempre oficiante, sempre nostálgica do diálogo, ansiosa do grande espectáculo que, enquanto discurso, é. [MORNA, 1985: 31-32]

            Poesia interrogativa e interrogante, pois, que é um permanente questionar o homem e o mundo, o sujeito poético e a poesia, as suas inter-relações, as suas interacções. Com interrogações retóricas, como não poderia deixar de ser. Porque as outras, as interrogações literais, exigem resposta imediata que não fomenta o diálogo nem o questionamento. Interrogações retóricas, porém, não apenas no sentido tradicional de “figura de paixão”, mas também e sobretudo como figura de conflito, ou seja, de pensamento retórico original (originário), que provoca o dizer e o pensar, os desenvolve e organiza em discursos.

[…] o moderno pensamento retórico é um pensamento heurís­tico, isto é, inventor e descobridor, mas sem verdades para inventar nem para descobrir. Sua heurística é tão-somente uma heurística de instrumentos para pensar e para falar. [PLEBE & EMANUELE, 1992: 185-186]

[Continuará]


Bibliografia (Apenas a referida nesta parte).

AA. VV., 1981: Studies on Jorge de Sena [...]. Santa Barbara: Bandanna Books.
MORNA, F. F., 1985: Poesia de Jorge de Sena. Lisboa: Comunicação.
PLEBE, A. & EMANUELE, P., 1992 (1989): Manual de Retórica. São Paulo: Martins Fontes (Trad. de Eduardo Brandão, revista por Neide Luzia de Rezende).
RODRIGUES, D. [F.], 1998: «Em torno da interrogação na poesia de Jorge de Sena». Mealibra (Revista de Cultura), n.º 1/2, série 3. Viana do Castelo: Centro Cultural do Alto Minho; pp. 21-27.
SENA, J., 19772: Poesia I. Lisboa: Moraes.
----------, 19882: Poesia II. Lisboa: Edições 70.
----------, 19892: Poesia III. Lisboa: Edições 70.




terça-feira, 6 de maio de 2014

I. Poesia em livro


               Todos os dias são da poesia e sua partilha, como pão nosso de cada dia.

                                                                                                                [Continuação do post anterior, dentro da mesma rubrica]




                                                                                                                                                                                                                       [Haverá mais]

quinta-feira, 1 de maio de 2014

quarta-feira, 30 de abril de 2014

segunda-feira, 28 de abril de 2014

IV. Frutos da Terra e do Homem


João Marcos: Biografia e bibliografia foi apresentado no dia a 25 de abril na Torre da Cadeia Velha, em Ponte de Lima. João Marcos, pseudónimo literário de João Gonçalves Ribeiro, é natural da freguesia limiana de Rebordões-Santa Maria, onde nasceu a 25 de abril de 1913. O lançamento inscreveu-se, por isso, na celebração do centenário do seu nascimento.


Poeta e ficcionista, João Marcos deixou publicados onze livros de poesia, quatro romances, um de contos e dois estudos de história/biografia: um sobre a vida do Conde da Barca (José Agostinho de Azevedo) e outro sobre o Cardeal Saraiva (Fr. Francisco de S. Luís), dois nomes importantes da política e da cultura portuguesa, naturais de Ponte de Lima.
O relato possível da vida de João Marcos e uma análise crítica, seguida de uma «antologia», da sua obra editada é o que encontramos neste livro. Ler os seus livros é deparamos, observa Cláudio Lima, com «um homem que fez da sua vida uma generosa aventura e das letras a sua paixão dominante. A sua poesia e a sua prosa narrativa — e sem excluir o seu labor de investigação histórica e de intervenção cívica — constituem inequívoca prova de um espírito que exaustivamente se questiona, que não cede a soluções fáceis e gratuitas, que conduz a escrita até aos limites da inquietação.» [p. 33]
Além disso, o biógrafo, considerando o biografado «um dos maiores escritores do Lima» do séc. XX, observa que ler-lhe os livros «é acompanhar o seu itinerário íngreme e pontuado de adversidades; é testemunhar a sua fé inabalável no Homem, contra todas as tentativas de manipulação e de redução a mera peça de uma engrenagem; é, enfim, usufruir de uma escrita exigente, vigiada, exemplar.» [Id.]
Estes aspetos encontram-se devidamente focados e desenvolvidos em João Marcos: Bibliografia e bibliografia (ed. da Câmara Municipal de Ponte de Lima, 2014).
Cláudio Lima, além de crítico e ensaísta, é também poeta e escritor, com significativa obra publicada em cada um destes géneros. É também limiano, natural de Calvelo, mas reside em Braga. Foi amigo íntimo de João Marcos e, como ele, um defensor do que chama «limianismo», fio condutor também presente no livro. Ninguém melhor do que ele, por isso, poderia dar-nos o retrato desta importante figura das letras pontelimenses.
João Marcos: Biografia e bibliografia é um livro bem escrito e bem estruturado, obra de um escritor sobre a vida e a obra de outro escritor. Recomenda-se, por isso, a sua leitura a quantos se interessam (e devemos ser todos nós) pelos valores culturais e seus agentes. Sem, todavia, cair em visões bairristas, redutoras por natureza, muito mais em se tratando de literatura. Mesmo quando se trata de homens e artistas sobre os quais não incidem os agressivos holofotes do marketing, porque independentes, sem filiações em escolas ou correntes, afastados dos grandes centros, suportando a edição dos seus livros ou em editoras de província ou de reduzida projeção nacional e, por isso, marginais ou marginalizadas. Uma questão de resistência por ser e estar, com dignidade, dados os conhecidos maus tempos que nos cercam.

David F. Rodrigues (apresentando o livro), Salvato Trigo (presidente da Assembleia Municipal), Victor Mendes (presidente da Câmara Municipal) e Cláudio Lima (autor do livro)

Por último, deixem lá de parte as sempre atrevidas gralhas e um ou outro dado menos preciso, no livro. Quanto a elas, agora que pousaram, é mais fácil alvejá-las. Quanto a eles, acontece em todos, a todos. Inclusive aos melhores, como é o caso.

NB - A fotografia da mesa encontra-se AQUI, de fotógrafo não identificado.